Artigos da categoria ‘Efeito Estufa’

Os dez maiores dilemas ambientais no Brasil

quinta-feira, 09 de outubro de 2008.

Um dos mais renomados especialistas brasileiros no fenômeno das mudanças climáticas, o pesquisador Eneas Salati elaborou um decálogo dos principais problemas ambientais a pedido do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), do qual foi consultor. Salati diz que o aumento de temperatura previsto para a Terra – de 0,6°C – parece pouco, mas é dramático e equivale à explosão de dez bombas de Hiroshima por segundo.

Ex-assessor do Banco Mundial e de seu braço financeiro, o International Financial Corporation (IFC), Salati atualmente é diretor técnico da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS) e membro do Fórum de Mudanças Climáticas. E defende que quando se trata de meio ambiente, metade da solução aparece quando se consegue definir em detalhes os problemas que se pretende enfrentar.
Nesta quarta-feira 8, Salati foi convidado para apresentar seu decálogo ambiental num encontro promovido pela Global Reporting Initiative (GRI), que define as regras para as empresas relatarem suas práticas e preocupações socioambientais.

Numa atitude inédita no mundo, a GRI, com sede em Amsterdã, na Holanda, escolheu o Brasil como projeto piloto para elaborar uma série de protocolos específicos para que as organizações brasileiras possam relatar suas ações sociais e ambientais nos balanços e relatórios de final de ano de forma condizente com as realidades nacionais.
A seguir, o decálogo dos dilemas ambientais segundo Eneas Salati:

1. Crescimento Populacional
Se tudo continuar como está, teremos um aumento populacional de 26% nos próximos trinta anos. Passaremos de 6,5 bilhões para 8,2 bilhões de pessoas no planeta.
Certa vez discuti com minha mãe sobre o impacto do crescimento populacional na degradação ambiental. Mas sou o nono filho de uma família de dez crianças e se tivesse controle populacional, eu não existiria.

2. Aumento do consumo de energia
Com o atual padrão de consumo, esperamos um aumento de 62% no consumo energético nos próximos trinta anos. Mais importante de tudo, se a China mantiver o mesmo padrão de consumo dos Estados Unidos, será necessário dobrar a produção de petróleo em vinte anos. Sobretudo, não há espaço para descartar todos os produtos que produzimos hoje.

3. Pobreza
Eu escolhi a palavra miséria para trata desse tema, mas o pessoal do BID e do Banco Mundial prefere a palavra pobreza. O que me interessa é traçar o paralelo entre miséria e pobreza e a degradação ambiental. Historicamente, a população mais pobre sempre ocupou áreas mais pobres em nutrientes, mais difíceis de se irrigar, menos férteis, mais passíveis de alagamento, desmoronamento, e com menos possibilidade de construção e de saneamento básico.

4. Aquecimento global
Em 2007, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) confirmou, com 95% de certeza, que o atual aquecimento da Terra é provocado pelas atividades humanas. Há quem considere pouco o aumento de 0,6° C na temperatura média da Terra, mas é bom lembrar que isso representa uma explosão de dez bombas nucleares de Hiroshima por segundo no planeta. Nos mares, a situação é séria. Até 300 metros de profundidade, já começamos a notar um aquecimento de 0,5° C na temperatura da água dos oceanos.
O mais crítico mesmo é o degelo da calota polar do Ártico, uma estrutura que existe há milênios e que em poucos anos derreteu em ritmo acelerado, diminuindo em espessura e em tamanho. As projeções para as próximas décadas são péssimas. Num relatório recente, o IPCC falava que a calota polar do Ártico devia desaparecer em 50 anos, hoje já se fala que em 15 anos ela pode deixar de existir. O que os modelos climáticos apontam é que o aumento da temperatura em todos os continentes foi bem além das oscilações naturais do planeta.

5. Destruição dos ecossistemas
Estima-se que 11 milhões de hectares de florestas tropicais sejam desmatados anualmente no mundo, uma área equivalente ao território da Guatemala. As florestas tropicais prestam serviços ambientais e isso tem valor. No Brasil, existe uma excelente legislação ambiental. A implementação dessa legislação é que é deficiente e falha. O resultado é que perdemos espécies animais e vegetais num ritmo acelerado.
Quando vivi na Amazônia, como diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) na década de 70, havia apenas 0,5% de desmatamento. Hoje o desmatamento está em 20% de corte raso, sem contar a extração de madeira de lei.

6. Matriz energética de transporte
Hoje o petróleo representa 96% da matriz energética mundial para o transporte. O gás natural responde por 2,4%, a eletricidade por 1,2% e o carvão, 0,4%. Já no Brasil a matriz é diferente. O petróleo representa 83,9%, o gás natural, 3,8%, a eletricidade por 0,2% e as energias renováveis respondem por 12% da nossa matriz energética. Precisamos investir em energias renováveis.

7. Lixo
A quantidade média produzida por um ser humano é de cinco quilos por semana. A produção diária de lixo no Brasil é de 240 mil toneladas. Na prática, 88% desse volume de lixo vai para os aterros sanitários ou lixões. O custo anual entre a coleta e o descarte é de R$ 4,1 bilhões. Uma das tecnologias mais utilizadas na Europa é a da incineração. Ela é cara, sem dúvida, mas é extremamente eficiente.

8. Impacto sobre a biodiversidade

Os impactos sobre a biodiversidade são de várias naturezas. Hoje há uma exploração excessiva dos recursos naturais e a introdução de espécies e doenças exóticas.

9. Recursos hídricos
A questão da água tem várias implicações. Primeiro que há uma sobre-utilização dos recursos hídricos por parte da agricultura. O saneamento básico praticamente não existe, há legislação, existe obrigação, mas ninguém faz, nem o município, nem o Estado, nem o governo federal. É preciso tratar os resíduos industriais e resolver a escassez e o manejo dos recursos hídricos no semi-árido brasileiro. Não é falta de tecnologia o que temos, também não há falta de dinheiro. No caso do saneamento básico, falta vontade.

10. Mudança climática global
O problema é muito mais sério do que parece. As mudanças climáticas não vão ocorrer hoje, nem amanhã, mas já começam a acontecer. O modelo hídrico para a Amazônia e o Nordeste brasileiro precisa de um viés diferente. Não apenas para a produção de eletricidade e de comida, mas para a produção de resultados socioambientais.
Os atuais padrões de consumo são incompatíveis com a disponibilidade de recursos naturais. A velocidade de consumo está além da capacidade de reposição natural do planeta. É preciso fazer uma revisão e atualização das legislações referentes ao tema.
Por isso considero importante esse Anexo Nacional proposto pela GRI para estimular as empresas a se adequarem a padrões internacionais de qualidade de gestão ambiental, indo além da própria legislação ambiental nacional.

A eleição americana e o futuro do planeta

quinta-feira, 25 de setembro de 2008.

Qualquer que seja o vencedor da próxima eleição presidencial dos Estados Unidos, quem assumir no dia 20 de janeiro de 2009 vai herdar uma lista de desafios consideráveis. E terá um papel vital na forma de os americanos e o mundo lidarem com as mudanças climáticas.
Para marcar as diferenças entre os dois candidatos à presidência americana – Barack Obama e John McCain – a revista científica britânica Nature divulgou esta semana um detalhado relatório para revelar o que Democratas e Republicanos pensam sobre o aquecimento global e o futuro da energia.
Os Estados Unidos buscam recuperar seu papel de negociador relevante nas conferências internacionais sobre o clima. O tempo é crucial para isso, já que o próximo encontro mundial, marcado para dezembro de 2009, em Copenhagen, na Dinamarca, é o prazo final para a negociação do sucessor do Protocolo de Kyoto – que toma como parâmetro as emissões de gases de efeito estufa de 1990 e propõe uma redução média de 5,2% até o ano de 2012.

Ao assumir a Presidência dos Estados Unidos, além das questões nacionais, Obama ou McCain também enfrentará um dilema interno na questão do clima. Terá de colocar em prática a legislação climática e tornar uma prioridade a redução americana de gases que agravam o efeito estufa.

Alguns especialistas consultados pela publicação científica britânica apostam que o mais provável é que o sistema americano siga o modelo de reduzir as emissões por intermédio de incentivo econômico para quem limitar suas emissões, de forma a poder negociar os créditos restantes.

A seguir, um retrato dos candidatos à Presidência dos Estados Unidos.

Republicanos

O senador John McCain está liderando a causa das mudanças climáticas antes mesmo de ela se tornar um assunto central no Partido Republicano. Ele promoveu a primeira emenda no Senado defendendo uma redução compulsória das emissões de gases de efeito estufa.

Antes contrário à exploração petrolífera em águas profundas, o senador que fez das mudanças climáticas uma de suas bandeiras mudou de idéia, sob pressão do aumento recorde dos preços do barril de petróleo. Agora McCain defende agressivamente a expansão e a produção doméstica de petróleo e gás.

A indicação da governadora do Alasca, Sarah Palin, como vice-presidente traz uma mensagem ambígua quando se trata de clima e energia. Em entrevistas recentes, Palin questionou publicamente se o aquecimento global era mesmo resultado da influência das ações humanas e transformou a exploração petrolífera em áreas intocadas do Alasca em uma de suas plataformas políticas.

Democratas

O senador Barack Obama assume uma postura rígida quando se trata das políticas de clima e energia. Ele defende a proposta de, até 2050, reduzir em 80% as emissões de gases de efeito estufa em relação aos índices de 1990.

Inicialmente favorável à moratória federal contra a exploração de petróleo em águas profundas, Obama recentemente mudou de opinião, concordando com um pacote que permite perfuração limitada em alto-mar.

Em janeiro, Obama foi duramente criticado pelos ambientalistas por defender a produção de carvão. Seu vice-presidente, Joe Biden, é um advogado com grande influência na área de mudanças climáticas. Ele foi o único senador a votar contra uma resolução de 1997 que propunha que os Estados Unidos não deveriam ser obrigados a reduzir suas emissões se países em desenvolvimento não fossem igualmente responsabilizados.

Gases de efeito estufa

Obama defende uma redução de 80% em 2050 e que se volte aos níveis de 1990 por volta de 2020.
McCain tem como meta reduzir as emissões aos níveis de 1990 até 2020 e chegar a 60% de queda em 2050.

Energia

Obama concorda com o ex-vice-presidente americano Al Gore de que os setores público e privado devem investir em energia renovável. Ele defende que até 2025, esta fonte represente 25% do portfólio americano e propõe incentivos para estimular a busca da eficiência energética.

McCain defende a exploração americana de petróleo e de gás e mudou para o lado dos defensores da perfuração num refúgio de vida animal numa região do Ártico, no nordeste do Alasca. Ele ainda propõe a construção de 45 novas usinas nucleares até 2030 e argumenta sua escolha no fato de que a energia nuclear não emite gases de efeito estufa.

Gold Standard endurece critérios de avaliação de projetos de redução de CO2

quarta-feira, 06 de agosto de 2008.

Com o intuito de garantir que projetos de redução de gases do efeito estufa (GEE) promovam o desenvolvimento sustentável no local onde são implantados, o esquema de certificação de créditos de carbono Gold Standard lança uma versão mais rigorosa de avaliação.

O Gold Standard Versão 2 (GSV2) combina exigências de certificação para o mercado voluntário e o compulsório em um único manual e inclui um ‘Kit de ferramentas” separado com exemplos, modelos e manuais detalhados para os projetos que serão submetidos à avaliação.

A Fundação Gold Standard, que tem o apoio de mais de 60 ONGs de todo o mundo, aceita apenas projetos de energias renováveis e eficiência energética.

O GSV2 também melhora a transparência na validação e verificação dos processos, exige que os validadores e verificadores façam visitas ao local onde o projeto é desenvolvido, aperfeiçoa a documentação para modelos fixos e alinha os termos com o da Comissão Executiva de Mudanças Climáticas da ONU, responsável pela aprovação dos projetos do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL).

A nova versão amplia os tipos de projetos elegíveis para receberem a certificação e alinha os critérios de sustentabilidade com os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e os Princípios de Salvaguarda da ONU.

MDL Programático

Outra novidade é um guia para projetos de MDL Programático, tanto para o mercado compulsório quanto para o voluntário, e explicações detalhadas de como submeter novas metodologias de reduções de emissões voluntárias (VER, na sigla em inglês).

O chamado MDL Programático ou Programa de Atividades (PoA, na sigla em inglês) foi lançado pelas Nações Unidas em 2007 como uma opção dentro do MDL que facilitasse o registro de um grupo de pequenos projetos com a mesma metodologia, porém em locais ou tempos distintos.

As regras para aprovação são similares ao MDL tradicional, com a diferença de que o programa como um todo, agregando os diversos projetos, é submetido para receber o registro da ONU.   Uma das principais vantagens é que, no decorrer do tempo, novos projetos podem ser revalidados como integrantes do PoA  já aprovado.

“Esta atualização consolida a posição do Gold Standard como um padrão líder no mercado voluntário. Na Ecofys, nós trabalhamos duro para melhorar a primeira versão – reduzindo as regras complicadas a todo momento para garantir que as examinações e balanços se tornem fortes”, afirma a líder na criação do GSV2, Claudia Doets, que é especialista em MDL na consultoria Ecofys.

A Versão 2 está valendo desde a última sexta-feira (1), quando foi lançada pela Fundação. Os projetos que se inscreverem para serem avaliados até 1º de setembro ainda poderão utilizar a Versão 1. Após esta data, a versão e todos a documentação correspondente não serão mais utilizados.

Para saber mais e acessar a nova versão, clique em http://www.cdmgoldstandard.org/materials.php. (Todo o site e documentos estão em inglês)
(Envolverde/Carbono Brasil)

Mudança climática: O Sul dá um passo adiante

segunda-feira, 07 de abril de 2008.

Mudança climática: O Sul dá um passo adianteO mundo em desenvolvimento anotou uma vitória na conferência sobre mudança climática que terminou no último fim de semana na capital da Tailândia: começaram a assentar as bases para um novo tratado internacional sobre aquecimento planetário. Os delegados do Grupo dos 77, que reúne 130 países em desenvolvimento mais a China, conseguiram nas primeiras horas do sábado que seja considerado o acesso às tecnologias “verdes” e à assistência financeira como prioridade no programa que deve desembocar no novo tratado, que deveria ser assinado em 2009.O documento final da conferência, patrocinada pela Organização das Nações Unidas, confirmou que estes dois aspectos serão retomados na próxima rodada de discussões, que acontecerá em junho na cidade de Bonn. “Não estamos completamente satisfeitos com o programa de trabalho, mas é importante que tenhamos conseguido algo para aperfeiçoar e discutir em termos de ação de longo prazo”, disse aos jornalistas Su Wei, número dois da delegação chinesa. “Há muitas diferenças e pontos de vista que se contradizem. Temos que aproximar posições para chegar a um consenso”, acrescentou.

O Grupo dos 77 enfrentou forte resistência dos países ricos, os maiores emissores de dióxido de carbono desde a Revolução Industrial iniciada na Grã-Bretanha no século XVIII, que tentaram consolidar outras prioridades na agenda de trabalho para o resto do ano. O Japão foi apontado como “vilão ambiental” por organizações ambientalistas, pois tentou modificar os critérios existentes para a redução de emissões de gases causadores do efeito estufa. Os representantes de Tóquio propuseram calculá-las por setor de atividade em lugar de guiar as limitações mediante metas nacionais.

“O Japão tentou manipular os resultados da conferência de dezembro em Bali (Indonésia) onde as nações em desenvolvimento acordaram reduzir suas emissões”, disse em uma declaração o Fundo Mundial para a Natureza (WWF). “Ao propor maiores restrições aos países em desenvolvimento, Tóquio ameaçou minar a confiança e a cooperação necessárias para continuar avançando”, acrescentou. O ativista japonês Yurika Ayukawa foi mais direto e disse à IPS que seu país adotou “uma atitude estúpida ao fazer com que os países em desenvolvimento se sintam ameaçados”.”Este é o resultado da pressão das indústrias japonesas sobre o governo. Estão contra as metas de redução absoluta porque afetam seus balanços econômicos”, acrescentou. “Assistimos uma batalha sobre quais interesses receberiam um tratamento prioritário: os das nações em desenvolvimento ou os do mundo rico”, disse Meena Raman, da organização internacional Amigos da Terra. “Se o programa de trabalho vai incluir os países em desenvolvimento, a tecnologia e o financiamento devem ser a prioridade”, acrescentou.

A reunião de Bangcoc sucedeu a conferência sobre mudança climática de Bali, realizada em dezembro e patrocinada pela ONU. Ali se chegou a um acordo para dar uma resposta comum de longo prazo com o objetivo de reduzir o aquecimento planetário, começando em 2013, data de vencimento do Protocolo de Kyoto da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática. O Protocolo impõe aos países ricos reduções obrigatórias nas emissões de gases causadores do efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento e procedentes - em boa parte - da queima de combustíveis fósseis.

Os membros do Grupo dos 77 aceitaram em Bangcoc reduzir suas emissões sem renúncia de seus objetivos de desenvolvimento e crescimento econômico. Neste esquema, o Norte deveria ajudar o Sul a se adaptar à mudança climática através de financiamento adicional e investimentos em tecnologias “verdes”. Esta conferência deveria avançar no Plano de Ação de Bali estabelecendo uma série de detalhes de trabalho que especificaram em detalhe os compromissos das nações em desenvolvimento e do mundo industrializado. Além do próximo encontro em Bonn, estão agendadas duas outras reuniões: em Gana, em agosto, e na Polônia, em dezembro.

A proposta japonesa sobre um enfoque setorial será tratada em Gana, enquanto o chamado da União Européia de “uma visão comum para um ação cooperativa de longo prazo” será discutido na Polônia. A reunião de Bangcoc fez parte do processo iniciado em 1992 com a aprovação da Convenção Marco sobre Mudança climática, na qual 192 nações acordaram que o mundo devia dar uma resposta significativa ao aquecimento. E 1997, o Protocolo de Kyoto reforçou o compromisso de reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa: 37 países industrializados e a UE aceitaram reduzi-las em 5% com relação aos níveis de 1990, até 2012.

As negociações em curso objetivam um acordo que suceda o Protocolo de Kyoto a partir de 2013. O eventual novo tratado deveria ser aprovado na conferência da ONU que acontecerá no próximo ano em Copenhague. Mas, não está claro o nível de redução de emissões que o mundo rico está disposto a aceitar depois de 2012, quando caducar a vigência do Protocolo de Kyoto. “Não estamos muito interessados nas discussões realizadas em Bangcoc, porque não abordaram o compromisso sobre metas de redução quantificadas por parte dos países industriais, disse o delegado sul-africano Alw Wills. Raman, da ONG Amigos da Terra, afirmou que “o encontro na capital tailandesa foi o primeiro passo para por em prática o Plano de Ação de Bali, mas, estamos muito perto de minar o que foi acertado em dezembro”.

Por Marwaan Macan-Markar, da IPS

(Envolverde/IPS)

http://envolverde.ig.com.br/materia.php?cod=45412

Derretimento de geleiras é irreversível

quinta-feira, 03 de abril de 2008.

Derretimento de geleiras é irreversívelPor Stephen Leahy, da IPS

As geleiras, torres de água doce do mundo, continuam derretendo aceleradamente e não há perspectivas de que esta situação se reverta. A taxa média de derretimento mais do que duplicou entre 2004 e 2006, informou o Serviço Mundial para a Vigilância das Geleiras (WGMS, sigla em inglês), com sede na Universidade de Zurique, na Suíça. “As últimas cifras são parte do que parece ser uma acelerada tendência sem um fim à vista”, disse o diretor da WGMS, Wilfried Heberli.

O rápido derretimento das geleiras é um claro indício de que a mudança climática se consolidou e milhões de pessoas, se não milhares de milhões, serão afetadas, alertou o diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), Achim Steiner. As geleiras alimentam os rios dos quais depende a sobrevivência de muitas pessoas: por exemplo, 360 milhões dependem do rio Ganges, na Índia, e 388 milhões do Yangtze, na China. Um fluxo menor de água dificultará o crescimento dos cultivos nessas zonas e em outras partes do mundo.

O rápido derretimento das geleiras também produz inundações e aumento do nível do mar. Em média, há um metro cúbico de água doce em cada 1,1 metro de gelo de geleira. O WGMS acompanha de perto a história das geleiras e possui informação contínua sobre as mudanças médias da espessura do gelo ocorridos desde 1980, tomando como referência 30 destas gigantescas massas de água congelada acumuladas nos cumes das cordilheiras.

A perda de gelo em 2006 foi particularmente alta, perto do triplo da registrada em 2005. No total, desde 1980, as geleiras sofreram uma perda líquida de 11,5 metros em espessura. Esta redução é claramente visível em muitas partes do mundo. Algumas das mais drásticas reduções aconteceram na Europa. A geleira Breidalblikkbrea, na Noruega, perdeu em espessura cerca de 3,1 metros apenas em 2006. Estudos recentes indicam que a maioria das geleiras da América do Sul, da Colômbia ate o Chile e Argentina, vêem seu volume diminuir de maneira acelerada.

Quase todas as geleiras nos Estados Unidos também estão diminuindo, disse William Bidlake, especialista do Instituto Geological Survey, do Estado de Washington. “Houve uma queda geral desde os anos 50″, acrescentou Bidlake à IPS. Diante do aumento das temperaturas do planeta, as geleiras se desfazem nas montanhas mais altas e frias. “Estamos presenciando uma situação que não ocorreu em milhares de anos”, afirmou. São as geleiras que mantêm a água de muitos rios norte-americanos durante os meses de verão.

O rígido inverno experimentado em muitas partes do hemisfério norte este ano pouco fez para deter o desaparecimento das geleiras, disse Richard Alley, pesquisador da Universidade do Estado da Pennsylvania (nordeste). O clima de inverno este ano, mais frio e com mais neve que o habitual, levou alguns a sugerir que o aquecimento global havia diminuído. Mas, mesmo este ano sendo mais frio que o anterior, a tendência geral dos últimos 30 anos demonstra que as temperaturas estão subindo, explicou Alley. As geleiras continuarão derretendo. As contínuas perdas de gelo na Groenlândia têm o potencial de aumentar o nível do mar sete vezes, acrescentou.

Enquanto isso, uma importante reunião entre os 20 maiores emissores de gases causadores do efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento do planeta, fracassou domingo, no Japão. Uma vez mais, as nações do Norte não chegaram a um acordo com as do Sul em desenvolvimento sobre como reduzir as emissões. Os principais países industrializados mais os emergentes como Brasil, China, Índia e Indonésia, são responsáveis por cerca de 80% de todas as liberações de gases que causam o efeito estufa.

Faltam apenas 18 meses para a próxima reunião da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que acontecerá em Copenhague, e na qual os governos deverão acordar um novo regime para a redução de emissões quando vencer, em 2012, o Protocolo de Kyoto, único instrumento atual contra o aquecimento global. Cientistas em todo o mundo afirmam que este novo regime deveria reduzir as emissões entre 25% e 40% até 2020, pois somente dessa maneira seria possível evitar um efeito catastrófico no planeta. Se não se conseguir um acordo internacional em 2009, “do mesmo modo que as geleiras, nosso espaço de manobra e a oportunidade de agir simplesmente desaparecerão”, alertou Steiner. (IPS/Envolverde)

(Envolverde/IPS)

http://envolverde.ig.com.br/materia.php?cod=44689