Por Darlene Menconi
A recente escada nos preços dos alimentos evoluiu para um desafio sem precedentes e de proporções globais. Embalado nesse discurso, Ban Ki-moon, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), anunciou em Berna, na Suíça, a criação de uma força-tarefa para enfrentar a crise alimentar. Ele pediu à comunidade internacional a doação urgente de US$ 2,5 bilhões para que organização possa continuar seus programas de ajuda aos necessitados.
Os alimentos ficaram mais caros no mundo todo, deixando governos em alerta e acirrando o debate em torno das causas para a escassez de comida. Uma constatação certa é que a disparada dos preços já aumentou a pobreza no mundo, provocando distúrbios sociais e instabilidade política em vários países. De acordo com o Programa Mundial de Alimentos (PMA) das Nações Unidas, a falta de alimentos ameaça a humanidade como um “tsunami silencioso”, que pode condenar à fome mais 100 milhões de pessoas. A desnutrição é uma das maiores tragédias globais, hoje há 800 milhões de seres humanos sofrendo de má nutrição.
São vários os fatores que culminaram no cenário atual de alta dos preços alimentares. O primeiro deles é o aumento da demanda por comida. A população mundial está comendo mais, especialmente nas economias de maior crescimento, como a China, que tem 1,3 bilhão de habitantes. A cada ano, a população mundial aumenta em 77 milhões de pessoas, o equivalente a um país como o Reino Unido. E a velocidade de ocupação no planeta só cresce, foi de 2,5 bilhões em 1950 para perto de 6,7 bilhões em 2007. Com mais gente comprando, vale a lei da oferta e da procura: os produtos se valorizam no mercado e ficam mais caros.
O segundo fator a estimular a alta dos alimentos foi a elevação do preço do petróleo. Hoje a agricultura é totalmente industrializada e depende em boa medida do petróleo, usado como matéria-prima nos defensivos agrícolas, nas químicas de preparação da lavoura, e também como combustível nos veículos que transportam as safras agrícolas e os produtos até o consumidor.
A especulação financeira foi considerada o terceiro fator de agravamento da crise. Com a queda do dólar, investidores que ganhavam dinheiro investindo na moeda americana migraram para a aplicação em outras commodities, e os produtos agrícolas foram alguns dos escolhidos. Muitos fundos têm usado as bolsas de mercadorias para especular com a antecipação da compra de safras futuras em busca de melhor rentabilidade, o que também contribui para valorizar e o preço de commodities como o trigo e o arroz.
Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), os preços internacionais do arroz começaram uma escalada desde o início do ano, depois de subirem 9% em 2006 e 17% em 2007. O preço do produto subiu 12% em fevereiro e mais 17% em março, segundo o índice All Rice Price, elaborado pela FAO.
O clima seria o quarto fator responsável pela redução na quantidade de alimentos produzida no mundo, segundo a ONU. As condições climáticas desfavoráveis devastaram culturas na Austrália e reduziram as colheitas em muitos outros países, em particular na Europa.
Segundo as previsões da FAO, as reservas mundiais de cereais caíram para o seu nível mais baixo em 25 anos com 405 milhões de toneladas na safra 2007/2008, o que significa 5 % ou 21 milhões de toneladas abaixo do nível já reduzido do ano anterior.
Há controvérsias sobre a dimensão da responsabilidade dos biocombustíveis, cujas matérias-primas (cana, milho e outras) disputam espaço com culturas destinadas à produção de comida. O caso ganhou atenção porque o etanol adotado pelos Estados Unidos é fabricado a partir do milho, o que estimulou alguns agricultores a deixar de atender à cultura alimentar para produzir etanol. Com a redução da oferta de milho, subiu o preço dos derivados, o que começou um processo em cadeia, aumentou o preço da ração dos animais e, conseqüentemente, das carnes.
Analistas como Jacques Diouf, diretor-geral da FAO, dizem que é preciso corrigir um dos principais problemas por trás da crise, que é a falta de investimento na produção de alimentos nos países pobres. Ele defende que a solução está em dar acesso a sementes, fertilizantes e ração animal.
É inegável, porém, que as restrições a produtos importados e os subsídios que recebem os agricultores europeus e americanos têm um papel essencial nessa crise alimentar que enfrentamos. Diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio), Pascal Lamy garante que “é sabido que os subsídios agrícolas distorcidos dos países ricos prejudicaram a produção de alimentos nos países em desenvolvimento”.
Por envolver questões tão complexas, há quem preveja que a crise dos alimentos será longa. Mesmo que haja uma resposta rápida para o suprimento, se olharmos todos os fatores, como energia cara, mudanças climáticas, reservas em baixa e demanda crescente, tudo leva a crer que os preços vão continuar altos, embora devam cair um pouco mais.
O abandono de investimento em agricultura e as mudanças climáticas têm um papel preponderante nessa equação. A constante falta de verba de incentivo agrícola resultou em queda na produtividade dos países em desenvolvimento. A produtividade, que aumentava e 3% a 4% ao ano para os grãos básicos, hoje está entre 1% e 2%. Para construir um mundo melhor, é importante agora não concentrar esforços apenas em ajuda alimentar urgente, mas investir em medidas de médio e longo prazo, focando na recuperação da agricultura. Só assim se pode evitar outras crises alimentares no futuro.