Artigos da categoria ‘Biocombustíveis’

Mentes brilhantes

quinta-feira, 23 de outubro de 2008.

Da ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva até o pensador francês Ignacy Sachs, o professor Ladislau Dowbor e o jornalista André Trigueiro, algumas das mentes mais brilhantes estiveram reunidas num hotel em São Paulo para debater os desafios ambientais brasileiros. Durante os três dias do Encontro Latino Americano de Comunicação e Sustentabilidade, promovido pela revista eletrônica Envolverde, o foco de discussão ficou concentrado em três temas: Amazônia, água e energia.

Num exercício para enxergar um pouco além do curto prazo, os palestrantes e os convidados apontaram para a atual crise financeira global como uma grande oportunidade para pavimentar os caminhos de um mundo cada vez mais sustentável, com relações empresariais pautadas pela ética, pelo respeito ao meio ambiente e pela responsabilidade social.

Na opinião do francês Ignacy Sachs, professor emérito da École des Hautes Études em Sciences Sociales de Paris, o Brasil parte com grandes chances de assumir a dianteira na corrida pela civilização da biomassa. O pesquisador francês, que vem ao Brasil pelo menos duas vezes por ano desde a década de 1940, defende que a produção de etanol seja uma porta para o País planejar seu desenvolvimento, mas ressalta a importância de redobrar os cuidados socioambientais na indústria canavieira.

“Finalmente começa a surgir a noção de que o desenvolvimento é antes de tudo social e o Brasil tem uma grande oportunidade de cuidar de sua ecologia sem prejuízo econômico”, resume Ignacy Sachs.

Já o economista Ladislau Dowbor, professor titular da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), compara o atual momento que vivemos no horizonte das mudanças climáticas a um marinheiro pendurado no mastro do Titanic ao avistar o iceberg que levaria o transatlântico ao naufrágio. “O tempo é um elemento importante na nossa análise. Não basta saber que há um problema, torná-lo transformador dos processos decisórios leva tempo”, resume.

Na prática, diz o professor Dowbor, as medidas que adotarmos agora para conter o aquecimento global devem demorar pelo menos trinta anos para surtir o efeito desejado. “Não podemos mudar as coisas no ritmo de um século. A janela dos dramas que vivemos hoje é muito mais rápida”, conclui o economista que mantém em seu site (www.dowbor.org) um dos endereços mais atualizados em leituras e novidades científicas sobre os temas atuais.

Considerada o sangue que mantém o atual sistema econômico em funcionamento, a energia é questão fundamental para definir os rumos da sociedade, na opinião do jornalista André Trigueiro, apresentador do programa Cidades e Soluções, do canal GNT, e professor de jornalismo ambiental da PUC do Rio de Janeiro. “A imprensa deveria cobrir muito mais as questões relacionadas à eficiência energética e às energias renováveis. Nos Estados Unidos, o candidato Barack Obama deixou claro como a escolha energética pode ser estratégica”, avalia Trigueiro.

O que está por trás das grandes discussões atuais, porém, diz o jornalista, é a necessidade de mudança no atual padrão de consumo. A conclusão desse pensamento foi levada à platéia pela ex-ministra do Meio Ambiente e atual senadora Marina Silva (PT-AC). “Temos que mudar o modelo de desenvolvimento. Não basta só desejar. Para alavancar esse movimento, é fundamental que a gente crie os meios, a visão, o processo e a estrutura para amparar essas mudanças”, disse Marina.

E explica que a mudança pressupõe um novo modelo de desenvolvimento que não prejudique os recursos naturais, nem interrompa os serviços ambientais benéficos à humanidade. Em sua palestra magna durante o Encontro Latino Americano que foi de 16 a 18 de outubro, Marina Silva estabeleceu as várias dimensões da sustentabilidade.

Falou da importância de cada um de seus aspectos: a dimensão econômica, a social, a ambiental, a cultural, a política, a ética e a estética, que diz respeito ao uso de recursos financeiros e toda a tecnologia disponível no mundo para preservar alguns dos mais belos tesouros naturais do planeta. Muitos dos quais são exclusividade de terras brasileiras, como o Pão de Açúcar, o Pantanal e a Amazônia, defendeu Marina.

A ex-ministra citou como exemplo de inspiração uma frase de seu antigo professor, o francês Edgar Morin, para quem a mudança no começo é apenas um desvio. “Precisamos ficar atentos aos núcleos vivos da sociedade para saber onde estão sendo produzidos esses desvios”, disse Marina. Numa metáfora futebolística, a senadora ainda explicou que isso significa “estar atento aonde a bola vai estar, não onde ela está agora”.

Crédito das imagens: Instituto Envolverde

Produção de biodiesel a partir da mamona é possível com mistura

segunda-feira, 15 de setembro de 2008.

Especialistas dizem que o óleo de mamona atende a exigências da Agência Nacional de Petróleo (ANP) e que pode ser usado até na produção do óleo B40; cultura gera emprego e renda no Nordeste do País

Brasília - A polêmica sobre a produção de biodiesel a partir de mamona – levantada pela Resolução número 7 da Agência Nacional de Petróleo (ANP), em março deste ano –, trouxe muitos mitos que pouco a pouco são derrubados por pesquisadores dessa oleaginosa. Além dessa discussão, há outros desafios a serem vencidos para a viabilidade da mamona, como a organização da cadeia produtiva e a produção de sementes com padrão de qualidade.

Pela resolução da ANP, o óleo de mamona é considerado muito viscoso, não sendo viável a produção de biodiesel feito apenas com mamona. O produto teria que ser misturado a outros óleos. Na opinião do chefe-geral da Embrapa Algodão, Napoleão Beltrão, não existe óleo que, isoladamente, seja perfeito para a produção do biodiesel. “A melhor saída é a mistura”, diz.

Segundo Napoleão, uma boa mistura é a resultante do óleo de mamona com óleo de coco, dendê ou buriti. “Dá um excelente biodiesel, bem leve e que atende às especificações exigidas”, destaca. A mesma defesa é feita pela coordenadora nacional da carteira de projetos de agroenergia do Sebrae, Wang Ching. Segundo ela, faz parte de uma estratégia de negócio o uso de mais de uma matéria-prima.

“É uma forma de se buscar um adequado balanceamento percentual entre os diversos óleos, aumentar as possibilidades de abastecimento regular e permitir que o empreendimento tenha impacto reduzido com as flutuações de preços de matérias-primas em decorrência de sazonalidades naturais”, afirma Wang.

Esse também é um meio de se aproveitar a biodiversidade do País, buscando maior competitividade e consolidação de mercado. “O Brasil tem condição de usar mais de 100 óleos para a produção do biodiesel”, diz Napoleão. O especialista destaca também que o óleo de mamona suporta com boa viscosidade até a produção do B40, que seria a mistura de 40% de mamona com o óleo diesel. Atualmente, no Brasil usa-se apenas o B3.

Questão social

O apelo da mamona também passa pela sua feição social. Especialmente no semi-árido do Nordeste brasileiro, a oleaginosa é vista como fonte de renda. Isso porque a mamona requer apenas cerca de 500 mililitros de chuva no ano, importante característica para suportar os longos períodos de seca. “É um produto que atende bem à agricultura familiar. Por não ser alimento, não exige rígidos procedimentos para estoque. Tem mercado assegurado e em alguns locais é tida como dinheiro, pois é usado como moeda de troca”, diz Wang.

A gestora do projeto do Sebrae em Alagoas, Rita Gonçalves, reforça esse ponto positivo. “A mamona é o que dá para plantar no semi-árido e gerar renda. Além disso, a plantação é aliada ao cultivo de feijão, levando também alimento para as famílias”, ressalta. Atualmente, o projeto do Sebrae nesse estado atende cerca de 500 produtores que têm vendido o quilo da mamona por R$ 0,80.

O engenheiro agrônomo Ronaldo Tenório, que trabalha na Usina de Biodiesel Governador Miguel Arraes, em Pernambuco, conta que a empresa compra há quatro anos mamona de produtores do estado. Há um ano passou a comprar também de produtores de Alagoas. Em janeiro, somente de Alagoas foram adquiridas cerca de 30 toneladas. A usina, que já está pronta, vai começar a produção do biodiesel nos próximos meses.

“A idéia é usarmos principalmente a mamona na produção. Se não houver matéria-prima suficiente, trabalharemos com outros óleos, como algodão e soja. Com o B3 que usamos hoje não há problemas de viscosidade, portanto, a resolução da ANP não vai comprometer nossa programação”, afirma Ronaldo.

Desafios

Para Napoleão Beltrão, da Embrapa, a viabilidade da mamona no País também passa pela construção de uma política de Estado para garantir a produção e a organização dessa cadeia produtiva. Outro desafio é o desenvolvimento de sementes de qualidade.

“Estamos repassando para produtores a variedade de semente de mamona chamada de BRS Energia. Ela tem alto teor, já que quase 50% de seu peso é composto de óleo. Além disso, é resistente a fungos e tem um ciclo mais precoce, de 100 a 120 dias, enquanto as outras sementes precisam de 200 a 230 dias”, explica.

A busca por sementes de qualidade é um gargalo em toda a produção agrícola, especialmente para o pequeno produtor. “No Brasil, cerca de 90% das sementes que chegam ao produtor não têm identidade genética, não têm qualidade fisiológica e contêm misturas”, diz Napoleão.

Uma boa saída para essa dificuldade é a parceria entre Embrapa e Sebrae para o uso da semente BRS Energia. No início do mês, foi realizado um dia de campo em Alagoas para o plantio dessa variedade. “É uma forma de fomentarmos o cultivo da mamona com qualidade”, destaca.

O Brasil tem hoje área plantada de 150 mil hectares e a produção é de 85 mil toneladas por ano. Já existem cerca de 4 milhões de hectares mapeados no Nordeste pela Embrapa para o plantio da oleaginosa.
(Envolverde/Agência Sebrae)

Na FAO, Lula critica opositores do etanol

quinta-feira, 05 de junho de 2008.

Na FAO, Lula critica opositores do etanolPresidente diz que crise alimentar tem vários fatores incluindo o petróleo; Ban Ki-moon pediu aumento da produção agrícola.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursou, nesta terça-feira (3), na abertura da Conferência Internacional sobre Segurança Alimentar, em Roma, e disse que o etanol não é o vilão da atual crise dos alimentos. O presidente está participando de uma reunião de alto nível, com o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon e dezenas de outros líderes internacionais, para buscar soluções, de curto e longo prazos.

Políticas Absurdas

“A verdade é que a inflação do preço dos alimentos não tem uma única explicação. A alta do petróleo que afeta os custos dos fertilizantes e dos fretes, as mudanças cambiais e a especulação nos mercados financeiros, o aumento do consumo de alimentos em países em desenvolvimento, como China, Índia e Brasil e sobretudo a manutenção das absurdas políticas protecionistas na agricultura dos países ricos”, disse.

Etanol

O presidente brasileiro afirmou que a associação entre a crise alimentar mundial e a produção de biocombustível passa por interesses econômicos.

“Vejo com indignação que muitos dedos apontados contra a energia limpa dos biocombustíveis estão sujos de óleo e de carvão. Vejo com desolação que muitos que responsabilizam o etanol, inclusive o etanol da cana-de-açúcar pelo alto preço dos alimentos, são os mesmos que há décadas mantêm políticas protecionistas em prejuízo dos agricultores dos países mais pobres e de consumidores de todo o mundo”, afirmou.

Antes de discursar na reunião da Organizaçao das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, FAO, Lula se encontrou com o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon.

Produção Mundial

“O Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu que a comunidade internacional não perca a oportunidade histórica de revitalizar a agricultura do mundo. Para ele, a meta deve ser aumentar em 50% a produção mundial de alimentos até 2030.
Para isso, de acordo com Ban Ki-moon, seria necessário diminuir as tarifas de importação de vários países.

Encontro Separado

Na véspera da abertura da conferência, Ban se reuniu com Lula num encontro privado. O presidente foi acompanhado pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim.

Após a reunião, Amorim falou a jornalistas e disse que Ban lembrou que a discussão sobre a crise dos alimentos não deve ser politizada, mas sim técnica”.

Discursaram ainda na conferência o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad e o presidente do Zimbábue, Robert Mugabe. O papa Bento 16 enviou mensagem dizendo que a fome e malnutrição são inaceitáveis.

A conferência da FAO, em Roma, termina nesta quinta-feira.

Para ouvir esta notícia clique em http://www.un.org/av/radio/portuguese/realfile/6298.asp ou acesse: http://www.un.org/av/radio/portuguese/detail/6298.html

(Envolverde/Rádio ONU)

Biocombustível será tema central do Fórum Global de Energias Renováveis

terça-feira, 20 de maio de 2008.

Biocombustível será tema central do Fórum Global de Energias RenováveisOs biocombustíveis serão o tema central das discussões do Fórum Global de Energias Renováveis, de acordo com o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão. Ao abrir o evento, realizado pela Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Onudi), em parceria com a Eletrobrás, neste domingo (18), em Foz do Iguaçu, o ministro disse que os biocombustíveis não prejudicarão a produção de alimentos no país.

“Esta reunião vai tratar preponderantemente de biocombustível. Este é o tema central”, ressaltou Edison Lobão. O ministro fez uma retrospectiva sobre o conhecimento acumulado desde a década de 70, pelo Brasil, com o álcool combustível, até chegar à atual política energética e aos biocombustíveis. Lobão saiu em defesa do Brasil e rebateu as críticas feitas pela comunidade européia pelo estímulo à produção do biocombustível no mundo.

“Nos acusam de estar beneficiando o biocombustível e prejudicando a produção de alimentos. Esta acusação não nos cabe. O aumento do preço dos alimentos se deve à alta do petróleo e, conseqüentemente, dos fertilizantes derivados dele”, defendeu Lobão.

Segundo o ministro, o governo federal jamais privilegiaria a energia elétrica em detrimento dos alimentos. “O alimento é fundamental para a humanidade e para a exportação. Não temos problema de espaço e de terras para plantar. Estamos produzindo hoje 140 milhões de toneladas de grãos, sendo que há cinco anos produzíamos 80 milhões”, esclareceu.

Sobre o desempenho do país no desenvolvimento de energias sustentáveis, Lobão antecipou propostas de construção de plataformas marítimas, voltadas à geração de energia eólica, e colocou o Brasil como um modelo. “Temos a maior matriz energética de fontes renováveis do mundo, totalizando 46%, enquanto o restante do planeta produz 13%”, lembrou o ministro. “O Brasil é um país que tem destino. Não temos ciúmes de nossas descobertas e queremos compartilhá-las com o restante do mundo. Somos um país aberto, cristão e solidário”, finalizou.

Edison Lobão falou ainda sobre a integração energética na América Latina, o novo direcionamento da Eletrobrás, as dificuldades em levar energia a regiões isoladas e sobre a universalização da energia elétrica com o programa ‘Luz Para Todos’.

Participação internacional – Aproximadamente 1,5 mil pessoas compareceram à abertura do Fórum Global de Energias Renováveis. Entre os presentes, representantes de 50 países, autoridades, especialistas e representantes do setor elétrico. O encontro tem como objetivo discutir fontes de energia limpa como substitutos aos combustíveis fósseis, cuja disponibilidade é esgotável.

O diretor-geral da Onudi, Kandeh Yumkella, defendeu que as energias renováveis devem estar presentes nas discussões do mundo moderno. “A nossa esperança é que os países em crescimento invistam cada vez mais em energias renováveis”, declarou.

Ele contou que a escolha de Foz do Iguaçu para sediar o Fórum aconteceu devido ao trabalho para geração de bioenergia que a Itaipu Binacional está desenvolvendo, de maneira integrada com pequenos produtores da região. “É uma visão de futuro e a parceria com o Brasil vai crescer nestes setores”, disse Kandeh, referindo-se às energias renováveis e ao agronegócio.

Para o diretor-geral da Onudi é preciso estudar formas de reduzir o custo das tecnologias para produção de energia limpa, permitindo o acesso da população. “Sabemos que muitas destas soluções como, por exemplo, os financiamentos de micro-crédito, estão no Brasil”, mencionou.

Necessidade - O presidente da Itaipu Binacional, Jorge Samek, chamou a atenção do público para a urgente necessidade de proteção do meio ambiente, aliada ao desenvolvimento de novas fontes de energia. “Temos de crescer, desenvolver, e isso não vai acontecer sem a produção de energia. Nós, da Itaipu, temos muito que mostrar do ponto de vista de energia renovável. Em 2007, 91% do consumo de energia elétrica no Brasil teve origem hídrica e a Itaipu está trabalhando para ampliar a sua matriz no que se refere a energia limpa”, destacou Samek.

Ele citou a Plataforma Itaipu de Energias Renováveis, que procura gerar valor econômico à energia produzida pelas próprias fontes consumidoras. “Existem muitas oportunidades para ampliar a participação das energias renováveis no mercado e este Fórum será um observatório para todos os países que tiverem interesse”, reforçou Samek.

Já o presidente da Eletrobrás, José Antonio Muniz Lopez, garantiu que o excedente de energia renovável gerada pelos estados pode retornar para a rede de baixa tensão – Sistema de Geração Distribuída.

A realização do Fórum Global de Energias Renováveis foi proposta durante um encontro ministerial ibero-americano sobre segurança energética, realizado em setembro de 2006, em Montevidéu. Na ocasião, foi assinada uma declaração destacando a necessidade de aumentar a oferta e a utilização da energia renovável na América Latina e no Caribe. Ao final do encontro, que prossegue em Foz do Iguaçu até a próxima quarta-feira (21), será produzido um relatório resumindo os temas importantes que foram debatidos e as conclusões das mesas redondas.

(Envolverde/Governo do Estado do Paraná )

As razões da crise dos alimentos

segunda-feira, 05 de maio de 2008.

As razões da crise dos alimentosPor Darlene Menconi

A recente escada nos preços dos alimentos evoluiu para um desafio sem precedentes e de proporções globais. Embalado nesse discurso, Ban Ki-moon, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), anunciou em Berna, na Suíça, a criação de uma força-tarefa para enfrentar a crise alimentar. Ele pediu à comunidade internacional a doação urgente de US$ 2,5 bilhões para que organização possa continuar seus programas de ajuda aos necessitados.

Os alimentos ficaram mais caros no mundo todo, deixando governos em alerta e acirrando o debate em torno das causas para a escassez de comida. Uma constatação certa é que a disparada dos preços já aumentou a pobreza no mundo, provocando distúrbios sociais e instabilidade política em vários países. De acordo com o Programa Mundial de Alimentos (PMA) das Nações Unidas, a falta de alimentos ameaça a humanidade como um “tsunami silencioso”, que pode condenar à fome mais 100 milhões de pessoas. A desnutrição é uma das maiores tragédias globais, hoje há 800 milhões de seres humanos sofrendo de má nutrição.

São vários os fatores que culminaram no cenário atual de alta dos preços alimentares. O primeiro deles é o aumento da demanda por comida. A população mundial está comendo mais, especialmente nas economias de maior crescimento, como a China, que tem 1,3 bilhão de habitantes. A cada ano, a população mundial aumenta em 77 milhões de pessoas, o equivalente a um país como o Reino Unido. E a velocidade de ocupação no planeta só cresce, foi de 2,5 bilhões em 1950 para perto de 6,7 bilhões em 2007. Com mais gente comprando, vale a lei da oferta e da procura: os produtos se valorizam no mercado e ficam mais caros.

O segundo fator a estimular a alta dos alimentos foi a elevação do preço do petróleo. Hoje a agricultura é totalmente industrializada e depende em boa medida do petróleo, usado como matéria-prima nos defensivos agrícolas, nas químicas de preparação da lavoura, e também como combustível nos veículos que transportam as safras agrícolas e os produtos até o consumidor.

A especulação financeira foi considerada o terceiro fator de agravamento da crise. Com a queda do dólar, investidores que ganhavam dinheiro investindo na moeda americana migraram para a aplicação em outras commodities, e os produtos agrícolas foram alguns dos escolhidos. Muitos fundos têm usado as bolsas de mercadorias para especular com a antecipação da compra de safras futuras em busca de melhor rentabilidade, o que também contribui para valorizar e o preço de commodities como o trigo e o arroz.

Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), os preços internacionais do arroz começaram uma escalada desde o início do ano, depois de subirem 9% em 2006 e 17% em 2007. O preço do produto subiu 12% em fevereiro e mais 17% em março, segundo o índice All Rice Price, elaborado pela FAO.

O clima seria o quarto fator responsável pela redução na quantidade de alimentos produzida no mundo, segundo a ONU. As condições climáticas desfavoráveis devastaram culturas na Austrália e reduziram as colheitas em muitos outros países, em particular na Europa.

Segundo as previsões da FAO, as reservas mundiais de cereais caíram para o seu nível mais baixo em 25 anos com 405 milhões de toneladas na safra 2007/2008, o que significa 5 % ou 21 milhões de toneladas abaixo do nível já reduzido do ano anterior.

Há controvérsias sobre a dimensão da responsabilidade dos biocombustíveis, cujas matérias-primas (cana, milho e outras) disputam espaço com culturas destinadas à produção de comida. O caso ganhou atenção porque o etanol adotado pelos Estados Unidos é fabricado a partir do milho, o que estimulou alguns agricultores a deixar de atender à cultura alimentar para produzir etanol. Com a redução da oferta de milho, subiu o preço dos derivados, o que começou um processo em cadeia, aumentou o preço da ração dos animais e, conseqüentemente, das carnes.

Analistas como Jacques Diouf, diretor-geral da FAO, dizem que é preciso corrigir um dos principais problemas por trás da crise, que é a falta de investimento na produção de alimentos nos países pobres. Ele defende que a solução está em dar acesso a sementes, fertilizantes e ração animal.

É inegável, porém, que as restrições a produtos importados e os subsídios que recebem os agricultores europeus e americanos têm um papel essencial nessa crise alimentar que enfrentamos. Diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio), Pascal Lamy garante que “é sabido que os subsídios agrícolas distorcidos dos países ricos prejudicaram a produção de alimentos nos países em desenvolvimento”.

Por envolver questões tão complexas, há quem preveja que a crise dos alimentos será longa. Mesmo que haja uma resposta rápida para o suprimento, se olharmos todos os fatores, como energia cara, mudanças climáticas, reservas em baixa e demanda crescente, tudo leva a crer que os preços vão continuar altos, embora devam cair um pouco mais.

O abandono de investimento em agricultura e as mudanças climáticas têm um papel preponderante nessa equação. A constante falta de verba de incentivo agrícola resultou em queda na produtividade dos países em desenvolvimento. A produtividade, que aumentava e 3% a 4% ao ano para os grãos básicos, hoje está entre 1% e 2%. Para construir um mundo melhor, é importante agora não concentrar esforços apenas em ajuda alimentar urgente, mas investir em medidas de médio e longo prazo, focando na recuperação da agricultura. Só assim se pode evitar outras crises alimentares no futuro.