Artigos da categoria ‘Aquecimento Global’

Ontem e Amanhã

quarta-feira, 07 de janeiro de 2009.

Os fatos que marcaram a agenda socioambiental no Brasil e no mundo em 2008 e o que será notícia em 2009.

Barack Obama
O aquecimento global e as fontes alternativas de energia foram temas quentes no processo de eleição do novo presidente dos Estados Unidos. Responsáveis por um quarto das emissões de gases que aceleram as mudanças climáticas, os americanos elegeram Barack Obama para, entre outras providências, mudar a postura de seu país nas negociações globais. Obama toma posse em 20 de janeiro de 2009, ano em que se discute o plano sucessor do Protocolo de Kyoto, que estabelece metas mundiais de redução das emissões de gases de efeito estufa.

Amazônia em chamas
Ao longo de 2008, os recursos naturais da Amazônia continuaram a ser corroídos pela devastação e pela ação humana descontrolada. Passado o efeito das ações de repressão promovidas no início do ano, a destruição voltou a crescer. Em janeiro, foi bloqueado o financiamento para atividades que produziam desmatamento nos 36 municípios com maior incidência de devastação, mas a situação se reverteu antes de o ano terminar.

Arco do desmatamento

Levantamento do Ministério do Meio Ambiente com base em dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontou Mato Grosso como o Estado que mais desmatou a Amazônia em 2008, seguido do Pará e de Rondônia. Foi o início de um desentendimento entre o governador mato-grossense Blairo Maggi, o Ministério do Meio Ambiente e o Inpe. O ano de 2009 começa com grande apreensão.

Marina Silva
Enfrentando oposição, a ministra Marina Silva deixou o governo em maio de 2008. Na carta de demissão ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, atribuiu sua saída às dificuldades enfrentadas “há algum tempo para dar prosseguimento à agenda ambiental federal”.

Carlos Minc
No lugar de Marina assumiu o ambientalista Carlos Minc, com a promessa de acelerar os licenciamentos ambientais e aumentar a repressão ao desmatamento. Em setembro, o ministro apresentou uma lista dos cem maiores destruidores da Amazônia. As maiores áreas eram assentamentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), colocando em xeque a política de reforma agrária do governo.

Qualidade de vida
O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil aumentou entre 2005 e 2006 e o país manteve a 70ª posição em um ranking de 179 nações divulgado em 2008 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O fator mais relevante para a melhoria da qualidade de vida brasileira foi o crescimento da taxa de alfabetização, do PIB per capita e da longevidade da população.

Força das águas
No final de novembro, o País assistiu à tragédia provocada pelas chuvas em Santa Catarina. O excesso de água fez os rios transbordarem, deixou casas submersas e outras desapareceram em meio às avalanches de lama. O dilúvio ocorreu porque choveu mais do que o habitual e faltaram as frentes frias que costumam soprar do Sul, mas a ocupação desordenada e o desmatamento agravaram a situação. Em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, a chuva também deixou saldo trágico, com dezenas de mortos e milhares de desabrigados. Os dilúvios acenderam o alarme dos riscos em outras regiões do País.

Refugiados ambientais
Castigada pelo aquecimento global, a população de Kiribati começou a abandonar o santuário ecológico no Pacífico Sul. O país com cerca de 105 mil habitantes está aos poucos sendo engolido pelo mar. Os moradores buscam 80% dos alimentos de outras regiões. Dentro de dois anos, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de 50 milhões de pessoas terão o mesmo destino de Kiribati e precisarão se refugiar devido a problemas ambientais nas regiões onde vivem.

Poluição urbana
As Olimpíadas de Pequim, em 2008, levantaram à tona a questão dos riscos da poluição urbana à saúde. Para frear seus efeitos, a Prefeitura de Pequim lançou um programa de combate ao pó antes da realização dos Jogos Olímpicos: em dias com ventos fortes, suspendeu as obras de construção civil e plantou um cinturão verde ao redor da capital para protegê-la dos ventos do deserto de Gobi. Ainda assim, alguns atletas boicotaram as Olimpíadas por conta do ar contaminado. Em São Paulo, estudo apontou a poluição urbana com um dos fatores para o nascimento de mais meninas do que meninos.

Degelo do Ártico
A espessura do gelo no Ártico despencou 49 centímetros em algumas regiões em 2008. Os índices sugerem que as geleiras desaparecerão até 2040. Só no verão do Hemisfério Norte, uma área congelada de 215 quilômetros quadrados – três vezes a ilha de Manhattan – virou água. A perda de gelo no Ártico tem implicações globais e será um dos temas polêmicos em 2009. Quanto maior a cobertura de gelo no planeta, maior a capacidade da Terra refletir a energia do Sol, controlando a temperatura. O degelo acelerado do Ártico mostrou que nas regiões polares o aquecimento acontece em velocidade bem maior do que os especialistas previram.

Além do limite
Relatório Planeta Vivo 2008, do WWF, mostrou que, caso o modelo atual de consumo e degradação ambiental se mantenha, os recursos naturais podem entrar em colapso a partir de 2030, quando seriam precisos dois planetas para atender à demanda por serviços ecológicos. A humanidade já usa um terço a mais dos recursos que a Terra poderia oferecer.

Uma verdade inconveniente brasileira

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008.

Por Henrique Andrade Camargo*

Falar em verdade inconveniente no Brasil chega a ser pleonasmo. Há várias delas em todo lugar da nação. Por hora, vamos ficar com o aquecimento global e tratar de um ponto que Al Gore não trata no “Uma verdade inconveniente” dele: a pecuária.

Diz-se que a demanda por energia dos países ricos é a principal culpada pela situação desagradável que enfrentamos hoje. A queima de combustíveis fósseis para a produção dessa energia libera muitos gases de efeito estufa na atmosfera, principalmente o demonizado CO2.

Não é o caso do Brasil, já que 80% da energia utilizada no país vem de hidrelétricas, consideradas fontes limpas. Mas a situação aperta quando o assunto é pecuária.

Não vamos fazer catecismo vegetariano ou declarar guerra aos carnívoros e pecuaristas do mundo (muito menos em época de festas). O importante é ter consciência de como um simples ato de alimentação pode condenar todo um sistema (não vamos abordar sobre qual é o melhor ou pior regime para o ser-humano). No fim das contas, cada um escolhe o que coloca dentro da própria boca.

Um gás malcheiroso

Toda vez que vou ao cinema aqui em Londres, onde moro atualmente, sou obrigado a assistir ao reclame da fabricante de sorvetes Ben & Jerry’s. Eles se dizem livres da pegada ecológica. Um dos pontos da propaganda é a menor flatulosidade de suas vaquinhas leiteiras que, como afirmam, contribui para diminuir o efeito estufa.

Apesar de soar um tanto cômico, aquilo me chamou a atenção. Quer dizer que, além de malcheirosos, os traques também esquentam o globo?

Claro! O metano produzido pela digestão bovina (ou por qualquer outro meio) é um dos gases que mais contribuem para o efeito estufa. O CH4 tem uma alta capacidade de armazenar calor - 21 vezes maior que o grande vilão CO2.

E está aí uma das maiores contribuições do Brasil para o aquecimento global.

O país conta com aproximadamente 200 milhões de cabeças de gado. É o maior rebanho comercial do mundo. Levando-se em conta que cada boi emite até 60 kg de CH4 por ano, chega-se a 12 milhões de toneladas desse gás despejadas na atmosfera pelos bovinos brasileiros. Já que o metano é 21 vezes pior que o CO2, não seria exagero dizer que essa quantidade equivale a 252 milhões de toneladas de dióxido de carbono, o mesmo montante produzido pelas queimadas na Amazônia.

A Organização das Nações Unidas (ONU) já estudou o caso. De acordo com a entidade, a criação animal para consumo humano contribui em 40% mais para o aquecimento global do que os aviões, carros e caminhões do planeta.

Não foi à toa que, há alguns meses, Su Taylor, da Vegetarian Society, organização vegetariana do Reino Unido, disse à revista New Scientist que a maneira mais fácil de reduzir a pegada ecológica é parar de comer carne.

Claro que isso não vai acontecer. Mas uma conscientização do ônus ambiental causado pela pecuária é o primeiro passo para, pelo menos, diminuir o consumo e, conseqüentemente, o estrago dessa atividade.

* Henrique Andrade Camargo é jornalista e blogueiro (http://www.minhalondres.blogspot.com). Já trabalhou para a Gerência de Comunicações do Grupo Abril e colaborou com revistas como Viver Psicologia, VIP e Superinteressante. Nesta última, junto com a equipe da publicação, ganhou medalha de ouro no Prêmio Malofiej 2005, o Oscar da infografia mundial, que é concedido pela Universidade de Navarra, na Espanha.

(Envolverde/Mercado Ético)

Na direção contrária de Kyoto

quarta-feira, 19 de novembro de 2008.

Num momento em que os vários líderes mundiais se reúnem para discutir as responsabilidades e os efeitos das mudanças climáticas, além da crise financeira global, um relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) aponta um quadro nada animador. Ao contrário do que revelam os países mais desenvolvidos, a crescente queimada das florestas tropicais nas nações em desenvolvimento não é o único agravante do aquecimento global.

De acordo com o levantamento, as emissões de gases de efeito estufa dos países mais industrializados cresceram 2,3% entre 2000 e 2006, em plena vigência do Protocolo de Kyoto, que estabelece que os países cortem em média 5,2% suas emissões em relação aos índices registrados em 1990.

A maior fatia de crescimento veio do antigo bloco soviético e do Canadá. O estudo das Nações Unidas mostra que particularmente no ano de 2006 houve uma redução de 0,1%, mas o próprio secretário-geral da ONU informa que essa queda é estatisticamente insignificante.

O mais grave nesse índice diz respeito às intenções. Apesar de o ano de 2000 ter sido um marco para a consciência mundial em torno do assunto das mudanças climáticas, na prática, os países não tomaram atitudes concretas para cortar suas emissões, conforme prometeram.

Maior vilão do estudo da ONU, o Canadá deveria ter reduzido suas emissões em 6% em relação ao índice de 1990, mas na prática, suas emissões subiram 21,3%. Já nos países da Europa Oriental tiveram uma alta de 7,4% na virada do século.

Entre as nações desenvolvidas que firmaram o Protocolo de Kyoto se comprometendo a reduzir suas emissões de gases de efeito estufa, o Reino Unido foi um dos poucos países a cumprir sua promessa de corte. Porém um relatório recente do governo britânico sugere nem isso seja verdade. E que se fossem contabilizados os efeitos da poluição vinda das embarcações e dos aviões e o carbono embutido nos bens importados para o país, até mesmo as emissões britânicas estariam indo na direção contrária de Kyoto.

No próximo mês, representantes de várias nações do mundo devem se reunir na Polônia para as negociações anuais para enfrentar os dilemas das mudanças climáticas. A expectativa é grande, mas a realidade pinta um quadro pouco otimista.

As organizações e a mudança climática

sexta-feira, 07 de novembro de 2008.

As empresas brasileiras só perdem para as organizações britânicas quando o assunto é a mobilização contra os efeitos da mudança climática. O número de companhias nacionais de capital aberto que preencheram o questionário do Carbon Disclosure Project (CDP) divulgando sua estratégia e gestão de emissões de gases de efeito estufa aumentou de 47 em 2007 para sessenta neste ano. Um nível de adesão de 83%, abaixo apenas do Reino Unido, onde 90% das grandes empresas de capital aberto convidadas a participar do levantamento aceitaram revelar seus planos de combate ao aquecimento global.

O CDP é a maior coalizão de investidores do mundo e representa um terço do dinheiro em circulação no planeta. São mais de 385 investidores signatários, com uma base combinada de ativos de US$ 57 trilhões. O questionário, em sua sexta edição no mundo – e terceira no Brasil –, foi enviado a 3.000 empresas ao redor do mundo. Ao todo, 1.550 organizações responderam às perguntas que tratam de quatro temas centrais: a visão sobre os riscos e oportunidades que a mudança climática representa para os negócios; a contabilidade das emissões de gases de efeito estufa; a estratégia gerencial de redução das emissões e a capitalização de oportunidades e, por fim, a governança corporativa relacionada às mudanças climáticas.

As respostas das empresas estão disponíveis no endereço www.cdproject.net. E a partir delas, os investidores passam a ter informação vital relacionada ao impacto atual e futuro da mudança climática em suas estratégias de negócio. Por isso, representam um importante recurso para a tomada de decisões de investimento. “A forma como as empresas estão gerindo suas emissões e se preparando para a mudança climática é mais um item que os investidores podem levar em conta para facilitar sua tomada de decisão, mas não é o único”, explicou Giovanni Barontini, um dos responsáveis pela versão brasileira do projeto.

Isso demonstra como os países e as empresas estão cada vez mais empenhados na busca de soluções tanto para a mitigação quanto para a adaptação às mudanças climáticas, e também à oportunidade de realização de novos negócios. A título de comparação, o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), que define a comercialização mundial de créditos de carbono, movimentou aproximadamente US$ 12,8 bilhões. E a China continua mantendo a liderança, com uma participação de 73% do volume negociado, enquanto o Brasil participou com somente 6%.

O fato de as solicitações de informação para as empresas serem feitas em nome dos investidores, segundo os organizadores do projeto CDP, serve para aumentar a conscientização da alta administração das empresas para que a mudança climática seja vista como assunto chave de negócios, o que requer um sério foco estratégico sobre essa temática.

Com oito anos de história, o Carbon Disclosure Project atualmente está presente em mais de vinte países, com novos projetos lançados na China, Coréia, América Latina, Holanda e Espanha em 2008. Ao longo deste ano, mais de 2.000 empresas foram incluídas no universo de pesquisa do CDP através de um novo projeto que avalia a emissão de gases de efeito estufa ao longo da cadeia de suprimentos. Três empresas brasileiras destacaram-se nesse grupo por serem as primeiras companhias fora do eixo Europa-Estados Unidos a aderir ao projeto. São elas a Centrais Elétricas de Santa Catarina, Vale e Banco Bradesco.

A Vale é a única empresa brasileira a fazer parte dos dois universos de pesquisa. E foi a primeira a disponibilizar seus dados estratégicos publicamente, de forma a que qualquer cidadão possa conferir no site do CDP. Já a Petrobras, segundo Barontini, também apresentou seus dados em 2007, porém numa modalidade restrita a visitações externas.

Uma das conclusões da atual edição do projeto CDP é que 55% das empresas que responderam ao questionário já estabeleceram metas de redução de gases de efeito estufa – pelo menos para seus acionistas. Alguns casos se tornaram modelo de boas práticas em mudanças climáticas, segundo Paul Simpson, chefe de operações do CDP em Londres.

Simpson relaciona as empresas com práticas exemplares: Basf, Iberdrola, Exelon, Nissan Motors e Scottish & Southern (cuja meta é reduzir pela metade até 2020 suas emissões de gases de efeito estufa), que fazem parte de indústrias altamente intensivas na geração de carbono, e Barclays, Merril Lynch, Munich RE, National Australia e EMC, que não são de mercados fortes emissores. No grupo de 60 melhores respostas ao CDP, mais uma vez desponta a Vale, como representante brasileira.

A regulamentação para as empresas se adaptarem às mudanças é inevitável, dizem os especialistas. “Estamos trabalhando em várias propostas de marco legal e de políticas públicas para que a iniciativa privada possa trabalhar de forma segura”, explica Rachel Biderman, do Centro de Estudos de Sustentabilidade (CES) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). “O que as empresas estão fazendo ao se declarar ao Carbon Disclosure Project é se adiantar no tempo e se preparar para essa mudança inexorável”, conclui Rachel.

Os dez maiores dilemas ambientais no Brasil

quinta-feira, 09 de outubro de 2008.

Um dos mais renomados especialistas brasileiros no fenômeno das mudanças climáticas, o pesquisador Eneas Salati elaborou um decálogo dos principais problemas ambientais a pedido do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), do qual foi consultor. Salati diz que o aumento de temperatura previsto para a Terra – de 0,6°C – parece pouco, mas é dramático e equivale à explosão de dez bombas de Hiroshima por segundo.

Ex-assessor do Banco Mundial e de seu braço financeiro, o International Financial Corporation (IFC), Salati atualmente é diretor técnico da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS) e membro do Fórum de Mudanças Climáticas. E defende que quando se trata de meio ambiente, metade da solução aparece quando se consegue definir em detalhes os problemas que se pretende enfrentar.
Nesta quarta-feira 8, Salati foi convidado para apresentar seu decálogo ambiental num encontro promovido pela Global Reporting Initiative (GRI), que define as regras para as empresas relatarem suas práticas e preocupações socioambientais.

Numa atitude inédita no mundo, a GRI, com sede em Amsterdã, na Holanda, escolheu o Brasil como projeto piloto para elaborar uma série de protocolos específicos para que as organizações brasileiras possam relatar suas ações sociais e ambientais nos balanços e relatórios de final de ano de forma condizente com as realidades nacionais.
A seguir, o decálogo dos dilemas ambientais segundo Eneas Salati:

1. Crescimento Populacional
Se tudo continuar como está, teremos um aumento populacional de 26% nos próximos trinta anos. Passaremos de 6,5 bilhões para 8,2 bilhões de pessoas no planeta.
Certa vez discuti com minha mãe sobre o impacto do crescimento populacional na degradação ambiental. Mas sou o nono filho de uma família de dez crianças e se tivesse controle populacional, eu não existiria.

2. Aumento do consumo de energia
Com o atual padrão de consumo, esperamos um aumento de 62% no consumo energético nos próximos trinta anos. Mais importante de tudo, se a China mantiver o mesmo padrão de consumo dos Estados Unidos, será necessário dobrar a produção de petróleo em vinte anos. Sobretudo, não há espaço para descartar todos os produtos que produzimos hoje.

3. Pobreza
Eu escolhi a palavra miséria para trata desse tema, mas o pessoal do BID e do Banco Mundial prefere a palavra pobreza. O que me interessa é traçar o paralelo entre miséria e pobreza e a degradação ambiental. Historicamente, a população mais pobre sempre ocupou áreas mais pobres em nutrientes, mais difíceis de se irrigar, menos férteis, mais passíveis de alagamento, desmoronamento, e com menos possibilidade de construção e de saneamento básico.

4. Aquecimento global
Em 2007, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) confirmou, com 95% de certeza, que o atual aquecimento da Terra é provocado pelas atividades humanas. Há quem considere pouco o aumento de 0,6° C na temperatura média da Terra, mas é bom lembrar que isso representa uma explosão de dez bombas nucleares de Hiroshima por segundo no planeta. Nos mares, a situação é séria. Até 300 metros de profundidade, já começamos a notar um aquecimento de 0,5° C na temperatura da água dos oceanos.
O mais crítico mesmo é o degelo da calota polar do Ártico, uma estrutura que existe há milênios e que em poucos anos derreteu em ritmo acelerado, diminuindo em espessura e em tamanho. As projeções para as próximas décadas são péssimas. Num relatório recente, o IPCC falava que a calota polar do Ártico devia desaparecer em 50 anos, hoje já se fala que em 15 anos ela pode deixar de existir. O que os modelos climáticos apontam é que o aumento da temperatura em todos os continentes foi bem além das oscilações naturais do planeta.

5. Destruição dos ecossistemas
Estima-se que 11 milhões de hectares de florestas tropicais sejam desmatados anualmente no mundo, uma área equivalente ao território da Guatemala. As florestas tropicais prestam serviços ambientais e isso tem valor. No Brasil, existe uma excelente legislação ambiental. A implementação dessa legislação é que é deficiente e falha. O resultado é que perdemos espécies animais e vegetais num ritmo acelerado.
Quando vivi na Amazônia, como diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) na década de 70, havia apenas 0,5% de desmatamento. Hoje o desmatamento está em 20% de corte raso, sem contar a extração de madeira de lei.

6. Matriz energética de transporte
Hoje o petróleo representa 96% da matriz energética mundial para o transporte. O gás natural responde por 2,4%, a eletricidade por 1,2% e o carvão, 0,4%. Já no Brasil a matriz é diferente. O petróleo representa 83,9%, o gás natural, 3,8%, a eletricidade por 0,2% e as energias renováveis respondem por 12% da nossa matriz energética. Precisamos investir em energias renováveis.

7. Lixo
A quantidade média produzida por um ser humano é de cinco quilos por semana. A produção diária de lixo no Brasil é de 240 mil toneladas. Na prática, 88% desse volume de lixo vai para os aterros sanitários ou lixões. O custo anual entre a coleta e o descarte é de R$ 4,1 bilhões. Uma das tecnologias mais utilizadas na Europa é a da incineração. Ela é cara, sem dúvida, mas é extremamente eficiente.

8. Impacto sobre a biodiversidade

Os impactos sobre a biodiversidade são de várias naturezas. Hoje há uma exploração excessiva dos recursos naturais e a introdução de espécies e doenças exóticas.

9. Recursos hídricos
A questão da água tem várias implicações. Primeiro que há uma sobre-utilização dos recursos hídricos por parte da agricultura. O saneamento básico praticamente não existe, há legislação, existe obrigação, mas ninguém faz, nem o município, nem o Estado, nem o governo federal. É preciso tratar os resíduos industriais e resolver a escassez e o manejo dos recursos hídricos no semi-árido brasileiro. Não é falta de tecnologia o que temos, também não há falta de dinheiro. No caso do saneamento básico, falta vontade.

10. Mudança climática global
O problema é muito mais sério do que parece. As mudanças climáticas não vão ocorrer hoje, nem amanhã, mas já começam a acontecer. O modelo hídrico para a Amazônia e o Nordeste brasileiro precisa de um viés diferente. Não apenas para a produção de eletricidade e de comida, mas para a produção de resultados socioambientais.
Os atuais padrões de consumo são incompatíveis com a disponibilidade de recursos naturais. A velocidade de consumo está além da capacidade de reposição natural do planeta. É preciso fazer uma revisão e atualização das legislações referentes ao tema.
Por isso considero importante esse Anexo Nacional proposto pela GRI para estimular as empresas a se adequarem a padrões internacionais de qualidade de gestão ambiental, indo além da própria legislação ambiental nacional.