Desde 2007, mais da metade da humanidade vive em regiões metropolitanas, que já acomodam mais de um bilhão de pessoas. Para refletir sobre o rumo das cidades no mundo, e na América do Sul, em particular, urbanistas, paisagistas, arquitetos, acadêmicos, políticos e prefeitos de 25 cidades de 14 países estiveram em São Paulo para participar da Urban Age América do Sul.
Tradicional espelho para refletir sobre as questões globais com os principais especialistas mundiais em mudanças urbanas, a conferência no passado já produziu análises profundas sobre Nova York, Xangai, Londres, Cidade do México, Johannesburgo e Berlim. Em 2007, várias cidades da Índia foram o foco. Em 2009, será a vez de Istambul e do Sudeste da Europa. O mapeamento completo das megacidades será exibido em Berlim, em 2010.
Este ano, o projeto voltou seu interesse para pesquisar o padrão de habitação, as formas políticas, geográficas, econômicas e físicas de São Paulo, Buenos Aires, Rio de Janeiro, Bogotá e Lima. A conferência Urban Age é organizada pela London School of Economics (LSE) e pela Alfred Herrhausen Society, do Deutsche Bank.
Seus realizadores contam que a conferência atual, sobre a América do Sul, foi a maior e a mais complexa já organizada, e juntou cem especialistas e líderes municipais. Seu objetivo maior foi discutir os principais problemas e impactos sociais, espaciais e econômicos decorrentes do crescimento urbano das cidades sul-americanas.
Alguns dos lugares mais urbanizados do planeta, as cidades da América do Sul têm 83% de sua população vivendo em grandes centros. A previsão é que até 2050, esse número deve chegar perto de 90%, dando início a uma nova geração de megalópoles, com significativas conseqüências sociais, econômicas e ambientais.
O impacto da expansão sobre o consumo de energia e a poluição, o aumento exponencial do número de automóveis particulares e os efeitos do crescimento urbano desordenado, de acordo com os pesquisadores da London School of Economics, são importantes termômetros de desenvolvimento analisados em um contexto de governança emergente.
Nos últimos cinqüenta anos, o número de cidades com mais de um milhão de habitantes cresceu expressivamente, chegando a 450. Quinze das vinte maiores regiões metropolitanas do mundo – com população entre 10 e 20 milhões – estão em países pobres, a maior parte no Hemisfério Sul. O número de cidades com mais de um milhão de pessoas na Ásia, África e América Latina combinadas cresceu de 39 para 308 entre 1950 e 2005. No mesmo período, esse número subiu de 37 para apenas 96 na Europa e América do Norte.
Uma das conclusões do estudo da Urban Age: apesar dos investimentos e do conhecimento especializado, ao longo da última década, Nova York, Londres, Berlim, Xangai, Johanesburgo e Cidade do México andaram muito devagar na direção da sustentabilidade nos transportes.
Essas cidades fizeram sérios esforços para aproximar as estratégias de uso da terra e de transportes, mas andam ainda vagarosamente no trato de outros meios, já que uma estrutura urbana mais saudável se baseia no transporte público e na mobilidade não motorizada. Os meios de transporte utilizados pela maioria das pessoas de locais como Xangai e Johanesburgo, principalmente o deslocamento a pé, em bicicletas e em microônibus recebem muito menos atenção do que deveriam.
Algumas das boas lições aprendidas nas edições anteriores da Urban Age na questão do transporte sustentável foram o sistema de ônibus expressos e as ciclovias de Bogotá, o pedágio urbano de Londres e a abordagem múltipla do sistema de transportes de Berlim.
Com 19 milhões de habitantes, a grande São Paulo é a maior cidade da América do Sul, já que ficou de fora a Cidade do México. A realidade paulista e a da capital mexicana representam modelos muito diferentes do que uma cidade pode ser, segundo os especialistas da Urban Age. As raízes da Cidade do México remontam a seu antigo passado pré-colombiano. Até o início do século passado, São Paulo não passava de um pequeno entreposto colonial. Hoje, é a maior cidade de uma das mais importantes novas economias do mundo.
Na opinião dos especialistas da Urban Age, a cidade de São Paulo poderia ter sido uma Manchester, uma Xangai ou uma Chicago. “Mas, ao passo que o Rio de Janeiro perdeu a vontade de trabalhar após ter perdido para Brasília sua condição de capital do país, São Paulo é uma segunda cidade que se tornou a primeira. Sua infra-estrutura pode estar comprometida e a criminalidade é um problema grave”, aponta o relatório da Urban Age.
O Brasil tem o décimo maior mercado do mundo, e o Produto Interno Bruto (PIB) de São Paulo é superior a US$ 10.000 per capita. A economia brasileira, informam os especialistas do projeto global, ultrapassou a do México e esse salto de crescimento em grande parte se deve a São Paulo.
A capita paulista partiu de apenas 240 mil habitantes nos primeiros anos do século passado, e apesar da redução do ritmo de suas proezas econômicas, ela tem sido uma máquina de criar empregos, absorvendo ondas sucessivas de imigrantes, vindos tanto da Europa quanto do Japão, além do empobrecido Nordeste brasileiro. A cidade tem mais helicópteros particulares registrados em nomes de seus cidadãos do que qualquer outra cidade do mundo. É uma autêntica metrópole do ponto de vista da diversidade racial, porque tem bairros japoneses, árabes, balcânicos e outros.
Por muitos parâmetros, dizem os especialistas de Londres, esta cidade é um absoluto sucesso.
Outra análise foi a de que somente com uma abordagem holística dos transportes, os legisladores urbanos poderão começar a oferecer soluções sustentáveis a seus cidadãos. Uma das considerações da Urban Age após analisar as cidades sul-americanas foi que as malhas de transporte público deveriam ser utilizadas mais intensamente, levando-se em consideração as necessidades de diferentes grupos de usuários em diferentes momentos do dia.
Segundo o veredicto dos especialistas em planejamento urbano, as regiões metropolitanas em crescimento, como é o caso de São Paulo, Buenos Aires, Lima e Rio de Janeiro, precisam investir em um coquetel integrado de medidas, que incluam melhorias na conectividade do transporte regional, implantação de um sistema de ônibus expressos, corredores reservados para o transporte coletivo, ciclovias e a introdução de políticas de gerenciamento de tráfego, como o rodízio de veículos por placa e pedágios urbanos.
Já o Rio de Janeiro é um flagrante exemplo da desigualdade social e da criminalidade. As disparidades entre ricos e pobres se refletem no seu espaço físico: as favelas mais pobres estão comprimidas nas encostas das montanhas acima da orla marítima, onde prédios são difíceis de construir, acidentes devido a chuvas torrenciais são freqüentes e o acesso a redes de saneamento e eletricidade é irregular. As taxas cariocas de homicídio são 17 vezes mais elevadas do que em Londres.
“São Paulo e Rio de Janeiro são as cidades do século XXI, muito mais do que Berlim, que é do século passado. Temos que aprender com vocês como é possível ricos e miseráveis conviverem no mesmo espaço, como ocorre nos bolsões de pobreza do Rio e de São Paulo. Assim será o futuro de Berlim e de outras cidades da Europa dentro de poucos anos”, diz Wolfgang Novak, diretor do Deutsche Bank, um dos patrocinadores da Urban Age América do Sul.
