As organizações e a mudança climática

sexta-feira, 07 de novembro de 2008.

As empresas brasileiras só perdem para as organizações britânicas quando o assunto é a mobilização contra os efeitos da mudança climática. O número de companhias nacionais de capital aberto que preencheram o questionário do Carbon Disclosure Project (CDP) divulgando sua estratégia e gestão de emissões de gases de efeito estufa aumentou de 47 em 2007 para sessenta neste ano. Um nível de adesão de 83%, abaixo apenas do Reino Unido, onde 90% das grandes empresas de capital aberto convidadas a participar do levantamento aceitaram revelar seus planos de combate ao aquecimento global.

O CDP é a maior coalizão de investidores do mundo e representa um terço do dinheiro em circulação no planeta. São mais de 385 investidores signatários, com uma base combinada de ativos de US$ 57 trilhões. O questionário, em sua sexta edição no mundo – e terceira no Brasil –, foi enviado a 3.000 empresas ao redor do mundo. Ao todo, 1.550 organizações responderam às perguntas que tratam de quatro temas centrais: a visão sobre os riscos e oportunidades que a mudança climática representa para os negócios; a contabilidade das emissões de gases de efeito estufa; a estratégia gerencial de redução das emissões e a capitalização de oportunidades e, por fim, a governança corporativa relacionada às mudanças climáticas.

As respostas das empresas estão disponíveis no endereço www.cdproject.net. E a partir delas, os investidores passam a ter informação vital relacionada ao impacto atual e futuro da mudança climática em suas estratégias de negócio. Por isso, representam um importante recurso para a tomada de decisões de investimento. “A forma como as empresas estão gerindo suas emissões e se preparando para a mudança climática é mais um item que os investidores podem levar em conta para facilitar sua tomada de decisão, mas não é o único”, explicou Giovanni Barontini, um dos responsáveis pela versão brasileira do projeto.

Isso demonstra como os países e as empresas estão cada vez mais empenhados na busca de soluções tanto para a mitigação quanto para a adaptação às mudanças climáticas, e também à oportunidade de realização de novos negócios. A título de comparação, o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), que define a comercialização mundial de créditos de carbono, movimentou aproximadamente US$ 12,8 bilhões. E a China continua mantendo a liderança, com uma participação de 73% do volume negociado, enquanto o Brasil participou com somente 6%.

O fato de as solicitações de informação para as empresas serem feitas em nome dos investidores, segundo os organizadores do projeto CDP, serve para aumentar a conscientização da alta administração das empresas para que a mudança climática seja vista como assunto chave de negócios, o que requer um sério foco estratégico sobre essa temática.

Com oito anos de história, o Carbon Disclosure Project atualmente está presente em mais de vinte países, com novos projetos lançados na China, Coréia, América Latina, Holanda e Espanha em 2008. Ao longo deste ano, mais de 2.000 empresas foram incluídas no universo de pesquisa do CDP através de um novo projeto que avalia a emissão de gases de efeito estufa ao longo da cadeia de suprimentos. Três empresas brasileiras destacaram-se nesse grupo por serem as primeiras companhias fora do eixo Europa-Estados Unidos a aderir ao projeto. São elas a Centrais Elétricas de Santa Catarina, Vale e Banco Bradesco.

A Vale é a única empresa brasileira a fazer parte dos dois universos de pesquisa. E foi a primeira a disponibilizar seus dados estratégicos publicamente, de forma a que qualquer cidadão possa conferir no site do CDP. Já a Petrobras, segundo Barontini, também apresentou seus dados em 2007, porém numa modalidade restrita a visitações externas.

Uma das conclusões da atual edição do projeto CDP é que 55% das empresas que responderam ao questionário já estabeleceram metas de redução de gases de efeito estufa – pelo menos para seus acionistas. Alguns casos se tornaram modelo de boas práticas em mudanças climáticas, segundo Paul Simpson, chefe de operações do CDP em Londres.

Simpson relaciona as empresas com práticas exemplares: Basf, Iberdrola, Exelon, Nissan Motors e Scottish & Southern (cuja meta é reduzir pela metade até 2020 suas emissões de gases de efeito estufa), que fazem parte de indústrias altamente intensivas na geração de carbono, e Barclays, Merril Lynch, Munich RE, National Australia e EMC, que não são de mercados fortes emissores. No grupo de 60 melhores respostas ao CDP, mais uma vez desponta a Vale, como representante brasileira.

A regulamentação para as empresas se adaptarem às mudanças é inevitável, dizem os especialistas. “Estamos trabalhando em várias propostas de marco legal e de políticas públicas para que a iniciativa privada possa trabalhar de forma segura”, explica Rachel Biderman, do Centro de Estudos de Sustentabilidade (CES) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). “O que as empresas estão fazendo ao se declarar ao Carbon Disclosure Project é se adiantar no tempo e se preparar para essa mudança inexorável”, conclui Rachel.

 
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