Durante muitos anos, os ambientalistas defenderam que adaptar-se à realidade das mudanças climáticas – em vez de botar um freio nelas – fosse algo comparável a apagar o fogo do Titanic: algo muito desejável, porém o mais importante seria mudar o curso do navio para evitar o seu naufrágio. O discurso do ex-vice-presidente americano Al Gore reflete essa mudança nas prioridades dos ecologistas e economistas. “Os países pobres são vulneráveis e precisam da nossa ajuda”, disse Gore, o ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 2007 por sua campanha de divulgação dos efeitos do aquecimento global.
Em julho deste ano, pela primeira vez, políticos americanos mostraram disposição de colocar dinheiro nos esforços globais de enfrentamento das mudanças climáticas, reservando US$ 20 milhões.
De acordo com a respeitada revista britânica The Economist, foram dois os fatores para explicar essa mudança recente de atitude. Um deles é a evidência de que o aquecimento global está acontecendo mais rapidamente do que o esperado. O segundo é que as mudanças climáticas afetam dois grupos de pessoas de forma desproporcional e injusta: os grandes prejudicados são os mais pobres entre os pobres e os que vivem em ilhas, o que soma 1 bilhão de pessoas em 100 países.
O primeiro impacto do aquecimento global tem sido justamente sobre as coisas das quais os países pobres mais dependem: a agricultura, as florestas tropicais e a pesca de subsistência. Um recente estudo elaborado por Robert Mendelsohn, da Universidade de Yale, estima que a cada 1°C de aumento na temperatura global, os fazendeiros na África perdem terreno equivalente a US$28 por hectare por ano. O aquecimento global, argumenta a revista, provoca erosão das costas, espalha pragas e doenças transmitidas pela água e produz mais padrões climáticos fora do comum.
A mais nova vertente de apoio à realidade climática são as parcerias público-privado. Há vários exemplos, desde a empresa australiana New Forests, que limpa florestas degradadas no Sudeste da Ásia e criou “certificados de conservação da biodiversidade”, que são vendidos para grandes empresas que querem se tornar mais verdes. Ou ainda a Swiss Re, que criou novos tipos de seguros subsidiados para ajudar fazendeiros pobres de países africanos a se proteger contra alguns dos impactos das alterações climáticas. Dezenas de pequenas empresas, diz The Economist, aconselham as grandes corporações a promoverem cortes em suas emissões de carbono, a investir em reflorestamento e na proteção do solo.
Do lado do setor público, os governos dos países ricos estão começando a criar impostos e receitas para reduzir a pobreza e se adequar ao aquecimento global. A França, por exemplo, já impôs uma taxa que varia entre €1 e €40 por assento de avião, usando o dinheiro para as políticas de combate ao HIV/AIDS na África. Alguns ecologistas já começam a defender taxa semelhante nos vôos internacionais para ajudar as nações mais pobres a se adaptarem às mudanças climáticas e reduzir a poluição. Um quinto do dinheiro recolhido com as políticas de créditos de carbono – o que se estima que seja algo superior a US$ 2 bilhões até o ano 2020 – supostamente iriam para os esforços de enfrentamento climáticos nos países em desenvolvimento.
A conferência das Nações Unidas, em Bali, em dezembro passado criou um imposto mundial sobre carbono, com o dinheiro a ser gasto por um organismo internacional. Sob o guarda-chuva do Protocolo de Kyoto, as empresas de países ricos financiam reduções nas emissões de empresas privadas nos países em desenvolvimento. Em troca, as empresas de países ricos podem compensar uma parte de suas próprias emissões. Portanto, diz a The Economist, a adaptação às mudanças climáticas está se tornando um bom negócio. O que não significa que também haja uma série de problemas e injustiças.
Os cálculos apontam que o custo de lidar com as mudanças climáticas estão na casa das dezenas de milhares de milhões de dólares por ano para os países pobres. Se o nível do mar subir, o que é preciso fazer? Construir muros para fazer barreiras contra o avanço do mar ou remover as pessoas de suas casas? Se as doenças infecciosas são cada vez mais numerosas, qual a melhor saída: gastar dinheiro tentando erradicar as piores doenças, como a malária, ou investir em saúde e nutrição em geral?
Segundo a revista The Economist, os acordos internacionais para resolver alguns destes litígios também não são simples. Entre os países em desenvolvimento, a maior parte das negociações sobre as alterações climáticas (tal como todo o resto) é liderada por três grandes países: China, Índia e Brasil. Que, aponta a publicação britânica, são também três grandes poluidores e os seus próprios interesses diferem muito de Estados insulares pobres. Mais vulneráveis às alterações climáticas, esses países são igualmente menos capazes de participar das conversações internacionais para selar acordos em prol das mudanças climáticas.
Para os países ricos há estratégias para compensar as reduções de emissões de gases de efeito estufa por intermédio da negociação de créditos de carbono. Já as nações mais pobres não são recompensadas se fizerem o mais importante para reduzir as suas emissões, que é a melhor gestão das florestas tropicais. O Brasil, por exemplo, está entre os maiores poluidores justamente por conta de sua crescente taxa de desmatamento da Amazônia. Ajudar a pagar a conta dos países mais pobres é o mínimo que se espera das nações industrializadas, que causaram a maior parte dos problemas relacionados à emissão de poluentes, argumenta a sisuda revista britânica.
