O setor produtivo e a sustentabilidade

sexta-feira, 15 de agosto de 2008.

Por Darlene Menconi

Num café da manhã, em São Paulo, com a nata empresarial brasileira, que responde por mais de 40% do PIB nacional, o ex-ministro Luiz Fernando Furlan apresentou o que ele chamou de uma visão da sustentabilidade menos radical e mais voltada a resultados.
Ex-presidente da Sadia e ex-ministro do Desenvolvimento do governo Lula, Furlan hoje preside a Fundação Amazonas Sustentável (FAS), uma organização não-governamental gerida como uma empresa, obedecendo aos princípios de governança corporativa. Seu principal programa é o Bolsa Floresta, que recompensa os moradores tradicionais e comunidades ribeirinhas pela guarda e manutenção da floresta em pé.
Uma das missões do ex-ministro é buscar investidores para compor o fundo para a Amazônia, que pretende somar R$ 100 milhões que seriam usados para criar oportunidades às 10 mil famílias de ribeirinhos que moram em áreas de preservação, evitando que o desmatamento seja a melhor fonte de renda no curto prazo.
Em sua apresentação para o Lide – Grupo de Líderes Empresariais, Furlan apresentou Virgílio Viana, diretor-geral da Fundação Amazonas Sustentável. Numa pesquisa feita pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) com os empresários presentes ao café da manhã mostrou que 70% das empresas ali representadas possuíam ações para minimizar seus impactos ambientais. A pesquisa mostrou ainda que mais de dois terços das organizações planejam, a médio prazo, controlar ou reduzir suas emissões de gases de efeito estufa.
A seguir, uma seleção dos assuntos abordados por Luiz Fernando Furlan sobre o tema Sustentabilidade: Crescimento Econômico com Respeito Ambiental:

Tecnologia agrícola
Os transgênicos devem ser tratados de forma pragmática. Não se pode fechar as portas para a ciência. O agronegócio brasileiro dá um show em tecnologia, o etanol e a produtividade da soja são dois bons exemplos. Outro dia conheci em Juazeiro do Norte uma fábrica de mosca-da-fruta esterelizada por radiação que é incrível. Os insetos ficam hibernando e se há uma infestação nas fazendas, as moscas são despejadas sobre os focos e elas controlam a praga biologicamente.

Fundação Amazonas Sustentável
A Fundação Amazonas Sustentável tem como missão promover o desenvolvimento sustentável em 34 unidades de conservação no Estado do Amazonas, buscando a conservação ambiental e a melhoria da qualidade de vida das populações tradicionais. Ao todo estão lá 10 mil famílias para explorar cinco hectares por família. O Bolsa Floresta representa um recurso a mais para as pequenas melhorias nas comunidades, que têm em média onze famílias, num território do tamanho da Inglaterra.

O Brasil no futuro
Outro dia um representante do Fed, o Banco Central americano, falou que em 2050, o Brasil deve ser a quarta maior economia do mundo, depois da China, da Índia e dos Estados Unidos, com o PIB da Alemanha e do Japão somados. Com uma economia sustentável, podemos dar um exemplo para todo o mundo. A aplicação da tecnologia é fundamental, foi assim com o manejo técnico da pecuária. Hoje uma cabeça de gado precisa de menos área e com esse ganho de produtividade, o resultado é conservação ambiental. Hoje existe uma sensibilização muito maior e é importante que o setor privado se organize não para fazer lobby, mas para ser protagonista nas questões ambientais e sustentáveis, porque quem vai pagar a conta no final é o consumidor e são as empresas. E por isso é importante a mobilização.

Hábitos de consumo
Houve uma redução no consumo de carnes e proteínas, com dois movimentos de vetores opostos. O número de idosos em países ricos cresceu, essas pessoas fazem uma dieta mais leve, com maior consumo de carne branca. Do outro lado do mundo, que representa mais de 50% da população, o crescimento foi maior entre os jovens, que comem mais proteínas. Os hábitos de consumo estão mudando e isso afeta o agronegócio diretamente.

Energia e natureza
O Brasil tem duas vantagens na economia do século XXI, que são a energia e os alimentos, ao mesmo tempo, dois entraves ao desenvolvimento. Os danos de um apagão podem ser ambientais, então sou a favor das usinas do Rio Madeira. Não adianta ter reservas hidrelétricas distantes do mercado de consumo. É muito melhor ter mais uma hidrelétrica do que ficar como é hoje. A energia de Manaus, por exemplo,vem de termelétricas a óleo diesel. O impacto do diesel na atmosfera é muito maior do que o de construir uma hidrelétrica na Amazônia.

Ser governo
Não tem uma solução única para tudo. O maior ativo que um País, um Estado ou um município pode ter são pessoas capacitadas para competir no mundo complexo de hoje. O setor produtivo brasileiro tem boas inspirações e bons exemplos e precisa assumir seu protagonismo. Estive no governo e sempre achei que em Brasília existia uma espécie de varinha mágica que resolvia tudo. Percebi que não é assim. Tudo depende do setor empresarial. Cada um de nós tem que fazer a sua parte.

Ser empresário
O Brasil é rico em entraves e em custos impingidos ao setor privado, com problemas de logística, infra-estrutura, tudo isso. Somos um País de heróis competidores. Só assim para entender como, apesar de todos esses problemas, as empresas brasileiras e os empresários nacionais conseguem competir no mercado global.

 
Categorias relacionadas: destaque da semana
Voltar para o topo