O avanço do Arco do Fogo

sexta-feira, 25 de abril de 2008.

O avanço do Arco do FogoDurante o mês de março, quando tradicionalmente chove a cântaros na temporada de cheia na Amazônia, os radares do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) detectaram uma das maiores extensões de desmatamento do ano numa única área, no Estado do Mato Grosso. Segundo cálculos estimados, a região de devastação no município de Marcelândia representa um pedaço de terra superior a 25 vezes o tamanho do parque Ibirapuera, em São Paulo.

O município é um dos 36 que mais devastaram a Amazônia, segundo cálculos do Inpe, e por isso desde janeiro ele não tem autorização para derrubar mais árvores.
Nas imagens divulgadas pelo Inpe, Marcelância é o líder absoluto em devastação. Em cinco áreas da cidade, foram derrubados 65,5 quilômetros quadrados de floresta, o que representa quase metade (45%) de toda a devastação medida no mês de março pelo Deter, o Sistema de Detecção em Tempo Real do Inpe.

Entre agosto de 2006 e julho de 2007, o sistema Deter captou 4.974,4 quilômetros quadrados de desmatamento. Já entre agosto de 2007 e março de 2008, o mesmo sistema mediu 4.732,3 quilômetros quadrados de devastação. Só em março deste ano, o sistema que usa imagens de três satélites que captam desmatamentos maiores que vinte metros de extensão conseguiu detectar 145,7 quilômetros quadrados a menos de floresta na região amazônica, o equivalente a 20% do desmatamento captado no mês de fevereiro. A boa notícia é que isso significa uma redução de 80% em relação ao mês de fevereiro, quando o Deter contabilizou 725 quilômetros quadrados de novas áreas desmatadas.

Segundo o Deter, houve queda no número de novas áreas desmatadas em quase todos os Estados da Amazônia Legal, exceto o Maranhão, onde a área registrada pelo Inpe aumentou de 2,1 quilômetros quadrados em fevereiro para 12,2 quilômetros quadrados no último mês.

Em alguns Estados o sistema não encontrou registro de desmates em março – caso do Acre, Amapá, Amazonas e Rondônia. Com 112,4 quilômetros quadrados de novas áreas devastadas, Mato Grosso responde por 77% dos desmatamentos registrados pelo Deter no período, apesar da redução de 82,4% em relação a fevereiro. E é aí que está concentrado o esforço do governo.

De acordo com ativistas, os novos números do Inpe são uma boa notícia para a floresta. Por pelo menos dois motivos. O primeiro é que a grande incidência de chuvas na região durante o mês de março permitiu a redução do desmate. E para completar, começaram a fazer efeito as medidas de combate à degradação da floresta adotadas pelo governo, entre elas a restrição de crédito para propriedades irregulares e a Operação Arco de Fogo, iniciada em fevereiro.

Tudo indica que a operação para conter a expansão do arco do desmatamento começa a assustar certos fazendeiros. Até o início de abril, a Operação Arco de Fogo havia aplicado RS$ 31,3 milhões em multas e apreendido 25,8 mil metros cúbicos de madeira em toras e serrada nos Estados do Pará, Mato Grosso e Rondônia – bases da ação integrada da Polícia Federal, Instituto Nacional do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e da Força Nacional de Segurança.

O Deter fornece dados sobre a cobertura vegetal da região para alertar as autoridades a fim de agilizar a fiscalização. A consolidação dos dados é feita por outra metodologia, o Programa de Cálculo de Desflorestamento da Amazônia (Prodes), que define as taxas de desmatamento e é divulgado no segundo semestre de cada ano. Tudo indica que a novela da vergonhosa devastação crescente na Amazônia ainda reserva muitos capítulos pela frente.

 
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