O aquecimento da Terra e a saúde

segunda-feira, 14 de abril de 2008.

O aquecimento da Terra e a saúdePor Darlene Menconi

Furacões intensos e freqüentes, como o Katrina, nos Estados Unidos, fenômenos raros como o Catarina, primeiro furacão do litoral Sul brasileiro. Ou ainda a onda de calor que matou 70 mil pessoas na Europa, em 2003, e as chuvas de outono, no Nordeste, que deixaram dezenas de mortos. Por mais tenebrosos que pareçam, esses não são os piores efeitos esperados do aquecimento global.

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), a preocupação maior está no aumento da incidência de doenças contagiosas, como a dengue, a malária e a febre amarela. Especialmente em países em desenvolvimento, onde é mais difícil o acesso à tecnologia e aos recursos necessários para conviver com as mudanças climáticas. Segundo estimativa da OMS, em 2080 deve subir para 2 bilhões o total de casos de dengue no mundo – hoje são 50 milhões. A organização avalia ainda que a cada 1º C de aumento na temperatura do planeta, devem morrer cerca de 20 mil pessoas por ano.

A dengue é descrita pela OMS como um “desafio crescente” nas cidades tropicais. O documento da organização diz ainda que o número de casos da doença aumentou de forma “dramática” nos últimos 40 anos, enquanto a urbanização sem planejamento – com focos de água parada – criou locais para a reprodução do mosquito Aedes aegypti, o transmissor da doença.

Os dados divulgados pela OMS nesta semana estão longe de ser animadores. Eles dão conta de que o aquecimento global deve provocar outros riscos à saúde, como a escassez de alimentos, que condena à subnutrição e à morte 3,5 milhões de pessoas por ano. Ou ainda doenças relacionadas à diarréia, muitas vezes causada pelo consumo e uso de água contaminada, e que responde por outras 1,8 milhão de mortes, além da malária, que mata outro 1 milhão todos os anos.

Longe de ser apenas uma questão ambiental ou crucial ao desenvolvimento, os impactos do aquecimento global prometem ter um ação direta na saúde e no bem-estar das populações. Na prática, são os países pobres os mais afetados. De acordo com os dados da OMS, as nações em desenvolvimento sofrem cotidianamente com o histórico de doenças contagiosas. Estima-se que nesses locais a mortalidade per capita seja até 300 vezes mais alta do que nos países desenvolvidos. O risco é ainda maior em regiões onde não há um sistema eficiente de saúde pública.

Dengue – O recente surto de dengue no Rio de Janeiro é outro assunto que provoca calafrios nas autoridades ligadas à saúde. O clínico Antônio Sérgio Almeida Fonseca, por exemplo, examinou o primeiro caso de dengue em Nova Iguaçu, na região metropolitana do Rio de janeiro, em 1986, após décadas sem registro da doença. Com a falta de condições do poder público tomar atitudes para combater o mosquito transmissor da doença, o Aedes aegypti deve trazer de volta, inevitavelmente, a febre amarela em sua forma urbana.

Segundo o médico da Fiocruz, a população brasileira está totalmente exposta ao mosquito causador das duas doenças (dengue e febre amarela). Em entrevista, o especialista prevê que muito em breve haverá uma grande epidemia de dengue mais grave do que a atual, em alguma grande cidade brasileira.

Segundo o médico Antônio Fonseca, a urbanização da febre amarela é um caminho sem volta. “É uma doença de primatas, silvícola”, ele diz. “O que a gente costuma dizer é que se nada for feito daqui a alguns anos será inevitável a urbanização (da doença)”, diz Fonseca. E completa: se não houver controle e monitoração do mosquito Aedes aegypti, a febre amarela vai voltar. “Rio de Janeiro e São Paulo são os principais focos de risco porque têm população explosiva em termos de densidade demográfica e baixa cobertura de vacina para a febre amarela”, completa o especialista da Fiocruz.

 
Categorias relacionadas: destaque da semana
Voltar para o topo