O imbróglio amazônico

sexta-feira, 01 de fevereiro de 2008.

O imbróglio amazônicoPor Darlene Menconi

A recente disputa a respeito dos números divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) sobre o desmatamento na Amazônia levantou um alerta sobre o desconhecimento do que ocorre nos rincões mais afastados do país. Tudo começou quando o Inpe, a autoridade nacional em monitoramento das florestas por satélite, anunciou dados alarmantes sobre o ritmo da devastação no final do ano passado.

As estatísticas iniciais mostravam que a derrubada da floresta havia aumentado 8% nos meses de junho a setembro de 2007, em comparação com o mesmo período do ano anterior, chegando a um total de 7 mil quilômetros quadrados de mata destruída. O dado mais preocupante estava reservado ao Estado de Rondônia, onde o aumento foi de 600% num período de 12 meses. E ao Estado do Mato Grosso, governado por Blairo Maggi, conhecido como “rei da soja”.

Depois de um constrangimento público e de manifestações exacerbadas de políticos, seja de acusação ou em defesa dos cientistas, o diretor do Inpe, Gilberto Câmara, retificou os números. Anunciou que a área desmatada, na realidade, foi bem menor do que a divulgada. Segundo o novo relatório, o desmatamento em agosto foi de 243 quilômetros quadrados. Em setembro, ele chegou a 611 quilômetros quadrados. Em Rondônia, um dos pomos do imbróglio da semana, foram derrubados 54 quilômetros quadrados de floresta. E em setembro, foram 84 quilômetros quadrados. Já no Mato Grosso, foram 93 quilômetros quadrados em agosto e 210 no mês seguinte.

“Erramos e corrigimos”, explicou-se o diretor do Inpe. De acordo com Câmara, houve uma dupla contagem de áreas desmatadas que já tinham sido detectadas pelo sistema Prodes e foram novamente computadas pelo sistema Deter, os dois programas de monitoramento por satélite utilizados pelo Inpe para acompanhar o ritmo de devastação amazônico.

O Prodes, ou Programa de Cálculo do Desflorestamento na Amazônia, estima as taxas anuais de desmatamento. Ele usa imagens de satélite que detectam áreas pequenas, e onde estão os primeiros sinais do avanço da destruição, mas sua desvantagem é que os satélites passam com menos freqüência sobre essa área. Já o Deter, sigla para Detecção do Desmatamento em Tempo Real, é uma ferramenta crucial para a fiscalização. As imagens detectam áreas desmatadas maiores do que 25 hectares e estão sempre atualizadas, uma vez que os satélites passam diariamente pela região.

A polêmica toda não deveria esconder a realidade dos fatos, de que o desmatamento na Amazônia continua firme e forte, abastecido pela atual bonança em que vivem a pecuária e o mercado da soja. Também é impossível negar que a destruição do maior patrimônio natural brasileiro é uma indústria em expansão. E que Mato Grosso continua responsável por cerca da metade da destruição.

A postura do governo Lula foi rápida, porém reativa. Em resposta ao novo relatório, o governo decretou corte de crédito para cidades que desmataram, maior fiscalização de fazendas, recadastramento de imóveis rurais e reforço da Polícia Federal na região. O presidente Lula convocou uma reunião com dirigentes de bancos públicos logo depois do Carnaval para tirar do papel a proposta de corte de crédito público com juros subsidiados a atividades econômicas associadas à devastação.

O mais recente dado divulgado pelo Banco Central revela que o governo permanece o grande incentivador da destruição de nossas florestas. Aponta que ao longo de 2006, foram concedidos meio bilhão de reais em financiamentos a pecuaristas e agricultores nos 36 municípios que mais desmatam.

A essa conclusão já chegaram outras entidades, em particular o Imazon – Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia -, a ONG mais vigilante quando o assunto é a destruição da maior floresta tropical do mundo. Os dados do Imazon indicam que desde o seu início até outubro de 2007, o governo Lula concedeu quase R$ 2 bilhões em empréstimos a pecuaristas na região Amazônia. Os principais financiadores foram o Banco do Brasil, o Banco da Amazônia e o BNDES.

Qualquer que seja o número real e preciso da destruição, o resumo da ópera é que o desmate voltou a subir de forma acentuada em novembro e dezembro de 2007, meses em que tradicionalmente não se desmata tanto porque coincidem com a época das chuvas, e que neste ano também fugiram à regra por conta de uma seca pronunciada na região.

No fundo, o cenário de devastação não é novidade nenhuma para os especialistas, que já previam um aumento na devastação da Amazônia diante da rentabilidade revigorada da pecuária e da sojicultura.

 
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