Os desafios ambientais de São Paulo

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008.

São Paulo 454 anosAo completar 454 anos, a cidade de São Paulo tem desafios importantes para enfrentar na área ambiental. A poluição atmosférica é o mais urgente deles, tendo em vista o crescimento da cidade e, por consequência, o aumento do número de automóveis circulando pelas ruas. No último século, a população da cidade de São Paulo cresceu cerca de 40 vezes, alcançando quase 11 milhões de habitantes, segundo o censo do IBGE.

Num rápido processo de ocupação, São Paulo e as cidades vizinhas avançaram sobre a vegetação natural, hoje praticamente restrita a parques municipais e estaduais. A substituição do verde por milhares de quilômetros de asfalto e muitas toneladas de concreto transformou a região numa espécie de estufa que ao longo do dia armazena calor do Sol.

Os dados mais recentes apontam que de 1940 até hoje, a cidade de São Paulo ficou em média 2 graus Celsius mais quente. Ao aquecimento provocado pela urbanização, que é conhecido como ilhas de calor, ainda é preciso somar o nada desprezível calor gerado pela queima de combustíveis pelos mais de 7,6 milhões de automóveis que circulam diariamente na capital. Entre 2002 e 2006, a frota de veículos aumentou em 20%. E o número de viagens motorizadas ultrapassou os 25 milhões por dia.

chuvas nos finais da tardeNum estudo em que analisou as séries históricas de chuva ao longo dos anos 1990, o geógrafo Tarik Azevedo, da Universidade de São Paulo (USP) confirmou que as chuvas intensas eram muito mais comuns nos dias úteis do que nos feriados e finais de semana, quando as atividades humanas geram menos calor na metrópole. O que significa que a cidade favorece a ocorrência de tempestades quando já existem as condições propícias. Isso explicaria a concentração das chuvas nos finais de tarde dos dias úteis.

A temperatura na região metropolitana é outra sinalização do efeito das atividades humanas sobre a natureza: ela sobe ao longo do dia até atingir um pico no início da tarde. Ao mesmo tempo, o ar se torna mais seco, cedendo umidade para a formação de nuvens. De acordo com os estudos, as chuvas intensas se concentram principalmente na região central, norte e leste de São Paulo, justamente as mais densamente urbanizadas.

Tornar a cidade mais humana, arborizada e menos poluída é uma tarefa difícil e cada vez mais urgente para melhorar a qualidade de vida de quem vive em São Paulo. Um estudo feito em seis capitais brasileiras revelou que nenhuma delas atende ao padrão da Organização Mundial de Saúde (OMS) para poluição do ar. Segundo pesquisa do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da USP, São Paulo ainda é a capital mais poluída do Brasil, mas Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte e Recife não podem se orgulhar por terem ar limpo. A principal fonte de emissão do poluente são os veículos.

A OMS recomenda que a concentração de material particulado fino (mistura de poeiras e fumaça) não ultrapasse os 10 microgramas por metro cúbico. Porém, a média foi de mais de 20 microgramas por metro cúbico nessas capitais. Em São Paulo, chegou a 30 microgramas. Recife, que foi a cidade que ultrapassou menos vezes o limite durante a pesquisa, teve média 12 – ainda um pouco acima do padrão.

Segundo o patologista Paulo Saldiva, do laboratório de poluição da USP, a exposição a esse tipo de poluição está diretamente relacionada a mortes por doenças cardiovasculares e bronquites crônicas. Mesmo em exposições de curta duração, as pessoas podem sentir efeitos da alta concentração do poluente: cansaço, tosse seca, irritação nos olhos, no nariz e na garganta.

Apesar dos avanços obtidos na última década no controle da emissão de gases e partículas poluentes, respirar o ar de São Paulo continua sendo um ato de heroísmo. Estima-se que nove pessoas ainda morram por dia na cidade, vítimas de problemas cardiovasculares, respiratórios ou cânceres de pulmão, direta ou indiretamente associados à poluição atmosférica.

A cada ano, a poluição é responsável pela morte de cerca de 3.500 moradores da cidade. Se considerados apenas os impactos econômicos, essa perda de vidas representa um custo total de US$ 350 milhões, levando em conta os anos de vida potencialmente produtivos que foram perdidos ou a perspectiva de conviver com doenças crônicas, que reduzem a capacidade de trabalho, de acordo com um estudo coordenado pelo mesmo Paulo Saldiva, que é professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Um de seus trabalhos mostra que São Paulo, Cidade do México e Santiago, no Chile, poderiam evitar 150 mil mortes, 4 milhões de crises de asma, 300 mil internações de crianças e 48 mil casos de bronquite crônica em um período de 20 anos e gerar uma economia de US$ 165 bilhões se reduzissem os níveis de poluição aos parâmetros indicados pela Organização Mundial da Saúde.

Outras pesquisas recentes revelam que o ar poluído pode ser prejudicial às gestantes, fazendo com que os bebês nasçam com menos peso e mesmo interferindo no sexo dos bebês: em regiões mais poluídas nascem mais meninas que meninos. O outro grupo são os fiscais de trânsito, cujo organismo sofre alterações tão intensas a ponto de liberar no sangue substâncias associadas ao infarto.

Os veículos são os principais responsáveis pelas camadas de fumaça grossas e cinzentas que se formam no céu de São PauloOs veículos são os principais responsáveis pelas camadas de fumaça grossas e cinzentas que se formam no céu de São Paulo. As vias respiratórias do corpo humano produzem menos muco para filtrar as impurezas do ar, que assim entram no organismo mais facilmente, atacam as células de defesa do organismo e diminuem a capacidade de resistência.

O limite máximo de concentração de monóxido de carbono foi ultrapassado 65 vezes em 1997. De acordo com o estudo de Paulo Saldiva, que avaliou a década de 1996 a 2005, o Proconve, Programa de Controle de Poluição do Ar por Veículos Automotores, implantado a partir de 1996 pela Cetesb, minimizou o problema ao exigir que os carros saiam de fábrica já com catalisadores e injeção eletrônica, que controlam a emissão de poluentes. Com isso foi possível reduzir os impactos econômicos da poluição, evitando 1.500 mortes por ano.

Se os níveis de monóxido de carbono atingiram patamares aceitáveis, as emissões de ozônio e de material particulado, a exemplo de zinco, manganês, níquel e chumbo, ainda superam os limites estabelecidos pela legislação brasileira.

A poluição em excesso parece interferir também na definição do sexo dos bebês. Em regiões de São Paulo mais atingidas pelos poluentes, há 2% mais meninas recém-nascidas do que meninos. Em áreas de poluição menos intensa, o placar se inverte e nascem 3% a mais de garotos.

De acordo com especialistas, a poluição atmosférica seria uma fonte a menos de preocupações para os paulistanos com algumas medidas elementares. A implantação de transporte público em quantidade e com qualidade, a criação de mais corredores de ônibus e a ampliação das linhas do metrô, a modernização da frota de caminhões movida a diesel e a aplicação do programa de fiscalização veicular somada à educação ambiental seriam as principais ações para minimizar esses efeitos danosos à saúde de quem vive na maior cidade do país.

 
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