O aquecimento e a eleição americana

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008.

O aquecimento e a eleição americanaDepois que o ex-quase futuro presidente dos Estados Unidos, o democrata Al Gore, recebeu o Prêmio Nobel da Paz por seu trabalho de divulgação das mudanças climáticas, ficou quase impossível fugir do tema. Na prática, políticos e formadores de opinião têm uma dificuldade a mais para serem levados a sério, sem mencionar sua política e suas prioridades para o meio ambiente. E não poderia ser diferente, agora que está em jogo a escolha do próximo presidente dos Estados Unidos, a nação mais rica do planeta e responsável por um quarto das emissões de gases poluentes.

As agências de notícias têm divulgado resultados das primeiras prévias das eleições presidenciais americanas, que sugerem que a questão ambiental estará mesmo em foco no próximo governo. Os candidatos com mais chances de escolha, entre os democratas, já começam a mencionar as mudanças climáticas como prioridade. E ousam criticar o governo George W. Bush por sua insistência em ficar à margem dessa questão global. Apontam em especial a recusa de Bush em assumir as metas de redução de emissões de gases de efeito estufa previstas no Protocolo de Kyoto, o acordo internacional que defende a redução média de 5% nas emissões de gases de efeito estufa, que agravam o aquecimento da Terra.

Os democratas se unificaram em torno de metas de cortes drásticos nas emissões até meados do século. Barack Obama, Hillary Clinton e John Edwards apóiam uma redução de 80% nas emissões até 2050, algo talvez fora de proporção. Entre os republicanos, a questão está presente também, mas ela não é exposta com clareza. Talvez isso seja aconteça por pudor ou fidelidade a Bush.
O apoio do presidente da nação mais poderosa do planeta é fundamental para colocar em prática as decisões da maior conferência de especialistas ambientais, realizada em Bali, na Indonésia, no final de 2007.

Espera-se que o novo presidente conduza os Estados Unidos no caminho definido no passado pelo ex-presidente Bill Clinton. A comunidade internacional conseguiu aprovar o “mapa do caminho de Bali” para lutar contra o aquecimento global, mas este é somente o início de um processo que deve durar anos e cujo êxito dependerá do resultado das próximas eleições presidenciais nos Estados Unidos.

O acordo estabelece que as negociações comecem em março ou abril de 2008. O resultado desses dois anos de negociação deve ser a elaboração de um novo tratado que substitua o Protocolo de Kyoto, com término previsto para o fim de 2012.
O Mapa de Bali foi aprovado no limite diante da posição resistente dos Estados Unidos, que exigiam um compromisso maior de redução de emissão de gases estufa por parte de grandes países emergentes, como China, Índia e Brasil.

Os países europeus e em desenvolvimento, que em Bali se aliaram contra a postura americana, têm agora a esperança de que o próximo inquilino da Casa Branca volte a colocar os Estados Unidos no caminho definido por Bill Clinton e ignorado por George W. Bush. O novo presidente americano não assumirá o cargo antes do final de janeiro de 2009, o que significa, segundo os especialistas, que terá poucos meses para preparar sua equipe e sua estratégia para ganhar o apoio da opinião pública a tempo de envolver ativamente seu país na maior das batalhas ambientais, a 13ª Conferência do Clima, que acontecerá em 2009, em Copenhagem.

A vitória de Mitt Romney em Michigan deixou os ambientalistas nervosos. Ele representa a pior proposta ambiental entre os candidatos que têm alguma chance e é quase tão ruim quanto Bush. Na prática, foi uma vitória esperada e sem grande impacto na definição de quem sairá candidato pelo partido Republicano.

Mitt Romney não só tem a proposta ambiental mais fraca de todos os candidatos, como piorou suas posições nos principais temas ao longo do tempo. Quando governador de Massachusetts, foi um dos articuladores da iniciativa que reunia vários estados para estabelecer um sistema de cota e crédito de carbono. Quando a proposta ficou pronta, em 2005, Romney, retirou seu estado do pacto, reclamando que representaria um custo alto demais para as empresas com elevadas emissões que não conseguissem cumprir suas cotas. Hoje, fazem parte da iniciativa batizada de Reggie os estados de Connecticut, Delaware, Maine, New Hampshire, New Jersey, New York, e Vermont.
Sua proposta parece a política de Bush requentada. Ele reconhece que a mudança climática parece estar acontecendo, mas diz que não está claro quanto que a ação humana tem contribuído para o problema. Defende, como Bush, acima de tudo, a independência energética, que poderia ter, como subproduto, a redução dos gases estufa, porque implicaria aumentar a participação dos biocombustíveis e outras fontes renováveis. É contra o Protocolo de Kyoto e qualquer acordo “que imponha padrões ao EUA”.

Hillary Clintom e Barack ObamaDefende a energia nuclear e os biocombustíveis, sem qualquer consideração sobre como são produzidos. Do lado republicano, parece que a candidatura ficará mesmo entre McCain e Romney, com Huckabee como pivô da decisão. Do lado democrático, a decisão será, muito provavelmente, entre Barak Obama e Hillary Clinton.

Hillary tem a máquina partidária e os democratas tradicionais a seu favor. Mas Obama, tem muito mais penetração entre os jovens, que podem fazer alguma diferença, por estarem mais mobilizados do que nunca. Também no campo democrata as coisas podem embolar e nem a super-terça ser capaz de resolver. Aí, tudo se definirá na convenção de agosto.

Nas eleições, o quadro não será de menos incerteza. Se der McCain, do lado republicano, ele divide os independentes com Obama e, obviamente, acaba ficando com o voto conservador, como o “menor dos males”. Disputando com Hillary, ele pode levar os independentes que iriam para Obama, mas ela poderia ficar com uma parte do voto conservador que não quer outro republicano e terá mais votos entre os negros e os latinos. Se der Romney, pelos republicanos, numa disputa com Obama, os dois são tão diferentes que é muito provável que a eleição se polarize podendo chegar à radicalização.

Nunca vi os democratas vencerem uma eleição radicalmente polarizada, sobretudo quando têm uma proposta fora do centro, como aconteceu com McGovern contra Nixon, que buscava a reeleição com enorme rejeição por causa do Vietnam e de Watergate e não obstante deu uma surra no democrata. Contra Hillary, Romney teria o machismo conservador a seu lado. Mas Hillary está mais ao centro que ele, onde tende a se concentrar a maioria do eleitorado e poderia levar vantagem. Se der Romney, será o pior resultado possível para o meio ambiente e para a política global do clima. Razão para o nervosismo dos ambientalistas.

 
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