Por Darlene Menconi
Durante a Feira Internacional do Meio Ambiente Industrial – FIMAI -, que aconteceu em São Paulo entre os dias 24 e 26 de outubro passado, Haroldo Mattos de Lemos, presidente do Comitê Brasileiro do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), falou sobre os efeitos da ecoeficiência e da produção limpa no dia-a-dia das empresas. Através da análise do ciclo de vida do produto, desde a matéria-prima até seu descarte final, as organizações conseguem detectar falhas ao longo de seu processo industrial. Com essas informações em mãos, elas podem corrigir seus rumos e seus erros, de modo a evitar desperdícios e ser mais eficientes no consumo dos recursos naturais. Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e um dos pioneiros do meio ambiente no Brasil, Mattos de Lemos diz que a sustentabilidade é um caminho sem volta: “Ou a indústria entra no caminho da ecoeficiência, ou a vida dela vai ser curta.” Leia a seguir os melhores trechos da entrevista.
Pergunta: Como é possível alcançar a sustentabilidade?
Haroldo Mattos de Lemos: Temos três grandes desafios que a humanidade tem que enfrentar para atingir a sustentabilidade. O primeiro deles é economizar recursos naturais para garantir que nós tenhamos recursos para nos servir no futuro, quando precisarmos, principalmente os não-renováveis. O segundo deles é não jogar sobre a biosfera mais resíduos do que ela é capaz de absorver, tanto no ar, quanto nas águas, quanto no solo. Um dos fatores do aquecimento global é que estamos jogando mais coisa na atmosfera do que ela consegue absorver de volta. E o outro grande desafio é praticar o desenvolvimento sustentável.
Pergunta: De que forma a melhoria do processo de produção e a melhoria do produto podem ajudar uma empresa a ser mais competitiva?
Haroldo Mattos de Lemos: Depois de melhorar o processo de produção, a coqueluche atual é você estudar o projeto do seu produto. A produção mais limpa é exatamente isso, é você entrar numa empresa e ver onde tem desperdícios de matéria-prima. Em geral, esse desperdício vai direto para dentro do efluente para ser tratado, vira resíduo. Na realidade, poluição é um tipo de resíduo, é matéria-prima que você está jogando fora. O que você está jogando fora como poluição você comprou na véspera como matéria-prima. A produção mais limpa entra numa empresa, vai ver onde tem desperdício, e verificar como você pode calibrar a sua produção para que, no final das contas, você consiga produzir a mesma coisa gastando menos energia, menos água, menos matéria-prima e gerando menos resíduos para serem tratados. Se você consegue isso, seu produto fica mais barato e você fica mais competitivo. As empresas ganham muito em competitividade quando conseguem fazer isso.
Pergunta: Quando falamos em investimento ambiental, estamos falando em melhoria da competitividade, em lucro, afinal?
Haroldo Mattos de Lemos: Claro, e é isso o que fez a atitude empresarial em relação ao meio ambiente mudar da água para o vinho nas duas últimas décadas. Até a metade do século XX, quando uma empresa era intimada a não jogar mais poeira na atmosfera do que a norma permitia, a única forma de resolver era botar um filtro na chaminé. Mas isso significava fazer um investimento, com gente fazendo manutenção, e o produto ficava mais caro. Até final da década de 70, início da de 80, a atitude empresarial em relação ao meio ambiente era reativa porque atender às questões ambientais significava perder competitividade, aumentar o custo do produto. Hoje a situação é diferente. Primeiro pela melhoria de produtividade e dos processos de produção, com redução de resíduos, de energia, de água, e economia de matéria-prima. Hoje existe uma segunda fase que é a melhoria do projeto dos produtos, o estudo do ciclo de vida desse produto, para verificar em que fase, se foi na retirada do material da natureza para gerar o produto, se foi durante sua fabricação, se é durante o uso do produto ou se é quando você joga ele fora, que está a fase de maior impacto sobre o meio ambiente. Hoje em dia a atitude empresarial é pró-ativa. A maioria das grandes empresas tem desempenho ambiental superior ao que é exigido pela lei, porque elas estão tendo lucro com a melhoria da produtividade. Para cada empresa tem uma solução indicada, ou é produção mais limpa, ou é gestão ambiental, ou é substituição de matéria-prima. Muitas empresas hoje sabem que cuidar do meio ambiente dá lucro.
Pergunta: Na prática o mercado já reconhece isso?
Haroldo Mattos de Lemos: O sistema financeiro é um excelente indicador. Os bancos perceberam que as empresas que cuidam do meio ambiente são mais sustentáveis e mais competitivas, e, portanto, têm maiores probabilidades de pagar um empréstimo. Tem uma frase famosa que diz que as empresas que não entrarem no caminho da competitividade, que não entrarem no caminho da ecoeficiência, não serão um problema no futuro porque elas deixarão de existir. Ou a indústria entra no caminho da ecoeficiência, e no caminho da sustentabilidade, ou a vida dela vai ser curta.
