Primeiro foi o leite adulterado, depois o queijo com data de fabricação modificada. De acordo com a Polícia Federal, duas cooperativas mineiras – Casmil e Cooperativa dos Produtores de Leite do Vale do Rio Grande (Coopervale) – colocavam água oxigenada e soda cáustica no leite que vendiam sob três marcas: Parmalat, Centenário e Calu.
Segundo um ex-funcionário, a mistura do leite longa vida consistia na adição de soda, açúcar, água oxigenada e várias outras substâncias, com o objetivo de fraudar o leite sem deixar vestígios. Na segunda-feira, dia 22 de outubro, a PF deflagrou a Operação Ouro Branco, que prendeu 27 pessoas em Passos, no Sul de Minas, e em Uberaba, no Triângulo Mineiro. Das 27 pessoas presas na segunda-feira, dois eram fiscais do Ministério da Agricultura.
Exames feitos pelo Ministério em agosto, a pedido da Polícia Federal, comprovaram a suspeita de adulteração. As amostras foram colhidas nos tanques de caminhões que transportavam leite cru. As investigações da PF concluíram que o leite produzido nas fazendas era vendido para as cooperativas. Ali ele era adulterado com dois objetivos: aumentar o volume e mascarar a má qualidade do produto.
Um relatório sigiloso do Ministério Público Federal apresentou o resultado da análise de mais de 50 mil litros de leite apreendidos em agosto na Casmil, cooperativa agropecuária localizada na cidade de Passos (MG).
A investigação confirma a contaminação do leite com peróxido de hidrogênio, mais conhecido como água oxigenada. A substância era misturada ao leite cru, entre a ordenha e o beneficiamento, e levava até quatro horas para ser diluída, tempo suficiente para não aparecer nos testes do Ministério da Agricultura.
Além de aumentar o prazo de validade do leite, o golpe era usado para mascarar as más condições de higiene, conservação e transporte. A análise mostrou que a mistura ainda provocava a destruição das vitaminas A e E, duas das mais importantes contidas no leite. Segundo o relatório, o leite com água oxigenada, se fosse ingerido em pequenas quantidades, poderia provocar problemas no estômago e no intestino. Se a concentração fosse muito alta poderia até matar ou provocar a perfuração das córneas, se em contato direto com os olhos.
O leite adulterado será tratado como resíduo industrial e jogado no esgoto. Das 24 marcas de leite longa vida analisadas, seis não passaram nos testes: Dália e Escolha Econômica, do Rio Grande do Sul; São Gabriel, de Mato Grosso do Sul; Manacá e Marajoara, de Goiás. De dezenove marcas de leite tipo C, 12 foram reprovadas, todas de fábricas goianas: Big Leite; Nutrileite; Santa Rita; Danleite; Lacton; Nívea; Capital; Gogó; Santos; Tayná; Vitalat e Vitta.
A Polícia Federal apreendeu ainda cerca de 16 toneladas de queijo do tipo mussarela, em Uberaba, também Minas Gerais. Os policiais apuraram que o queijo era comprado no estado de Goiás para ser reembalado em Minas. O produto era adquirido nas vésperas da data de validade ou já vencido, mas a nova embalagem tinha uma data estendida.
Além dos queijos, os policiais apreenderam também sacos com embalagens usadas. O depoimento de um dos funcionários do laticínio de Uberaba que adulterava a embalagem de queijo vencido para vendê-lo como novo revelou que o escândalo é maior do que se imaginava. Os primeiros dados colhidos mostram que os fraudadores despejavam 20 toneladas de queijo estragado por semana em São Paulo e em mais quatro cidades do interior – Ribeirão Preto, Bauru, Guaratinguetá e Presidente Prudente.
Isso se refere a apenas uma das empresas investigadas no Triângulo Mineiro pela Operação Ouro Branco. A PF desconfia que o problema tenha proporções muito maiores, talvez nacionais.
O queijo fraudado era adquirido de graça, como rejeito, ou a preço ínfimo em seis laticínios de Goiás. Depois era levado para Uberaba, onde era desembalado, limpo e reembalado com prazo de validade atualizado e marcas distintas, para confundir a fiscalização.
De Uberaba, o produto seguia para supermercados e pontos de varejo da capital paulista e de quatro cidades do interior. O queijo adulterado foi apreendido durante uma busca realizada pela PF. Das sete marcas encontradas, seis são de Goiás e uma de Minas.
Os queijos, que também não apresentavam embalagem a vácuo, como é exigido para produtos com validade maior do que 90 dias, voltariam ao mercado com o nome de mussarela “Triângulo Mineiro”, com vencimento para janeiro de 2008. Alguns queijos já estavam se deteriorando, outros apresentando fungos.
