O escândalo dos laticínios

segunda-feira, 05 de novembro de 2007.

O escândalo dos laticíniosPrimeiro foi o leite adulterado, depois o queijo com data de fabricação modificada. De acordo com a Polícia Federal, duas cooperativas mineiras – Casmil e Cooperativa dos Produtores de Leite do Vale do Rio Grande (Coopervale) – colocavam água oxigenada e soda cáustica no leite que vendiam sob três marcas: Parmalat, Centenário e Calu.

Segundo um ex-funcionário, a mistura do leite longa vida consistia na adição de soda, açúcar, água oxigenada e várias outras substâncias, com o objetivo de fraudar o leite sem deixar vestígios. Na segunda-feira, dia 22 de outubro, a PF deflagrou a Operação Ouro Branco, que prendeu 27 pessoas em Passos, no Sul de Minas, e em Uberaba, no Triângulo Mineiro. Das 27 pessoas presas na segunda-feira, dois eram fiscais do Ministério da Agricultura.

Exames feitos pelo Ministério em agosto, a pedido da Polícia Federal, comprovaram a suspeita de adulteração. As amostras foram colhidas nos tanques de caminhões que transportavam leite cru. As investigações da PF concluíram que o leite produzido nas fazendas era vendido para as cooperativas. Ali ele era adulterado com dois objetivos: aumentar o volume e mascarar a má qualidade do produto.

Um relatório sigiloso do Ministério Público Federal apresentou o resultado da análise de mais de 50 mil litros de leite apreendidos em agosto na Casmil, cooperativa agropecuária localizada na cidade de Passos (MG).

A investigação confirma a contaminação do leite com peróxido de hidrogênio, mais conhecido como água oxigenada. A substância era misturada ao leite cru, entre a ordenha e o beneficiamento, e levava até quatro horas para ser diluída, tempo suficiente para não aparecer nos testes do Ministério da Agricultura.

Além de aumentar o prazo de validade do leite, o golpe era usado para mascarar as más condições de higiene, conservação e transporte. A análise mostrou que a mistura ainda provocava a destruição das vitaminas A e E, duas das mais importantes contidas no leite. Segundo o relatório, o leite com água oxigenada, se fosse ingerido em pequenas quantidades, poderia provocar problemas no estômago e no intestino. Se a concentração fosse muito alta poderia até matar ou provocar a perfuração das córneas, se em contato direto com os olhos.

O leite adulterado será tratado como resíduo industrial e jogado no esgoto. Das 24 marcas de leite longa vida analisadas, seis não passaram nos testes: Dália e Escolha Econômica, do Rio Grande do Sul; São Gabriel, de Mato Grosso do Sul; Manacá e Marajoara, de Goiás. De dezenove marcas de leite tipo C, 12 foram reprovadas, todas de fábricas goianas: Big Leite; Nutrileite; Santa Rita; Danleite; Lacton; Nívea; Capital; Gogó; Santos; Tayná; Vitalat e Vitta.

Polícia Federal apreendeu cerca de 16 toneladas de queijo tipo mussarela com prazo de validade adulterado.A Polícia Federal apreendeu ainda cerca de 16 toneladas de queijo do tipo mussarela, em Uberaba, também Minas Gerais. Os policiais apuraram que o queijo era comprado no estado de Goiás para ser reembalado em Minas. O produto era adquirido nas vésperas da data de validade ou já vencido, mas a nova embalagem tinha uma data estendida.

Além dos queijos, os policiais apreenderam também sacos com embalagens usadas. O depoimento de um dos funcionários do laticínio de Uberaba que adulterava a embalagem de queijo vencido para vendê-lo como novo revelou que o escândalo é maior do que se imaginava. Os primeiros dados colhidos mostram que os fraudadores despejavam 20 toneladas de queijo estragado por semana em São Paulo e em mais quatro cidades do interior – Ribeirão Preto, Bauru, Guaratinguetá e Presidente Prudente.

Isso se refere a apenas uma das empresas investigadas no Triângulo Mineiro pela Operação Ouro Branco. A PF desconfia que o problema tenha proporções muito maiores, talvez nacionais.

O queijo fraudado era adquirido de graça, como rejeito, ou a preço ínfimo em seis laticínios de Goiás. Depois era levado para Uberaba, onde era desembalado, limpo e reembalado com prazo de validade atualizado e marcas distintas, para confundir a fiscalização.

De Uberaba, o produto seguia para supermercados e pontos de varejo da capital paulista e de quatro cidades do interior. O queijo adulterado foi apreendido durante uma busca realizada pela PF. Das sete marcas encontradas, seis são de Goiás e uma de Minas.

Os queijos, que também não apresentavam embalagem a vácuo, como é exigido para produtos com validade maior do que 90 dias, voltariam ao mercado com o nome de mussarela “Triângulo Mineiro”, com vencimento para janeiro de 2008. Alguns queijos já estavam se deteriorando, outros apresentando fungos.

 
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