Por Sabrina Domingos, do Carbono Brasil
A hipótese de que o aquecimento global seria causado pelo Sol, e não pela atividade humana, é rejeitada por um estudo apresentado esta semana. Críticos do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) – órgão que define a concentração de CO2 na atmosfera, proveniente principalmente da queima de combustíveis fósseis, como a maior responsável pelas mudanças climáticas – afirmam que a Terra aquece e esfria de acordo com os ciclos naturais do Sol. No entanto, uma análise de dados realizada por dois cientistas europeus pretende colocar um ponto final nessa discussão ao mostrar que, nos últimos anos, a atividade solar diminuiu, enquanto as temperaturas continuaram a subir.
A polêmica se acirrou em março deste ano, quando o documentário “A grande enganação do aquecimento global” foi ao ar na televisão britânica apresentando a hipótese de que os raios solares seriam responsáveis pelo aquecimento do planeta. O programa foi duramente criticado por distorcer informações científicas para exibir um argumento cético.
No Brasil, o pesquisador especialista em clima da Universidade Federal de Alagoas, Luiz Carlos Molion, é um dos que defendem esta hipótese. Ele afirma que os períodos de aquecimento brusco da Terra coincidiram com épocas de maior produção de energia do sol. Assim como Molion, outros pesquisadores acreditam que o atual aquecimento é parte de um ciclo natural – resultado da variação da produção solar e não das emissões de carbono.
Mas, uma nova análise de dados sobre a atividade do sol nos últimos 25 anos do século 20 joga por terra essa noção. Os cientistas observaram a atividade do sol e a intensidade dos raios cósmicos e compararam com a média global das temperaturas da superfície. Os dados mostram que, mesmo com a atividade solar diminuindo desde 1985, as temperaturas globais continuaram a subir em ritmo acelerado.
“O registro da temperatura simplesmente não coincide com nenhuma outra força solar de que as pessoas falavam”, afirma Mike Lockwood, do Laboratório Rutherford-Appleton, na Grã-Bretanha, que realizou o novo estudo juntamente com Claus Froehlich, do World Radiation Center, na Suíça.
“Este estudo reforça o fato de que o aquecimento nos últimos 20 ou 40 anos não pode ter sido causado por atividade solar”, diz Piers Forster, da Universidade de Leeds, na Grã-Bretanha, um dos principais cientistas que contribuíram para a avaliação científica do clima feita pelo IPCC. O relatório da entidade apresentado em fevereiro concluiu que gases do efeito estufa eram cerca de 13 vezes mais responsáveis pelo aumento das temperaturas na Terra do que as mudanças no Sol.
Raios cósmicos
Outra alegação refutada pela análise é a de que o sol afeta o clima ao evitar a formação das nuvens, que, em geral, esfriam a Terra. Por essa teoria, o campo magnético do sol estaria protegendo o planeta dos raios cósmicos – partículas altamente energizadas emitidas por estrelas e galáxias que formam nuvens e refletem a energia solar de volta para o espaço, resfriando o planeta.
Nesse caso, se o campo magnético do sol fosse alto, haveria uma redução nos raios cósmicos, menos nuvens e mais calor. Os dados de Lockwood, entretanto, mostram que o campo magnético do sol declinou desde 1985 – mesmo com o maior aquecimento.
Em artigo na revista científica da Sociedade Real Proceedings, os pesquisadores dizem que raios cósmicos podem ter afetado o clima no passado, mas não no presente. “Todos os gráficos que eles mostraram paravam por volta de 1980, é porque as coisas mudaram depois daquilo”, avalia Lockwood. “Não se pode ignorar dados de que não se gosta”, retruca.
“Eles mudaram a direção em 1985, o clima não… o aumento da temperatura deveria estar diminuindo, mas, na verdade, está se acelerando”. A temperatura média global está subindo 0,2 graus a cada década e os dez anos mais quentes foram registrados nos últimos 12 anos.
Apesar disso, Lockwood acredita que haja um efeito dos raios cósmicos sobre a cobertura oferecida por nuvens. “Funciona no ar marítimo limpo, onde não há muito mais onde o vapor d’água pode se condensar”, diz. “Pode até ter tido um efeito significativo no clima pré-industrial, mas não se deve aplicar ao que estamos vendo agora, porque estamos em uma situação completamente diferente”, completa.
Com informações de The Guardian e BBC Brasil
(Envolverde/Carbono Brasil)
