Darlene Menconi
Todos os anos, o Brasil produz uma montanha de telefones celulares, computadores, televisores e aparelhos eletroeletrônicos velhos que seriam suficientes para dar uma volta ao redor da Terra no vagão de um trem de carga. As 50 milhões de toneladas de sucata eletrônica geradas anualmente no mundo já representam 5% de todo o lixo da humanidade, segundo estudo da organização ambientalista Greenpeace.
Poucas pessoas se dão conta da magnitude dos problemas ambientais e de saúde que o lixo eletrônico representa. Metais pesados – como cádmio, chumbo e mercúrio – são encontrados nos componentes eletrônicos dos milhões de celulares, pilhas, baterias e aparelhos de tevê de tubo, dos milhares de videocassetes, calculadoras e copiadoras que ficam obsoletos da noite para o dia. As substâncias tóxicas desses produtos acabam largadas em lixões ou queimadas, liberando toxinas que podem atingir o lençol freático e poluir regiões inteiras.
Um único monitor colorido de computador ou televisor pode conter até três quilos e meio de chumbo. Nos Estados Unidos, país onde as estatísticas são mais precisas, estima-se que 12 toneladas do chamado e-lixo cheguem anualmente aos aterros sanitários. A preocupação atingiu tal nível que alguns países europeus estão forçando os fabricantes a pegar de volta os equipamentos eletrônicos descartados pelos usuários. Nos Estados Unidos, os estados da Califórnia e Massachusetts baniram o lixo eletrônico de seus aterros sanitários.
Um estudo em andamento no Instituto de Tecnologia da Georgia, nos Estados Unidos, poderá oferecer um modelo para outros estados e países. Os pesquisadores desenvolveram um sistema de produção reversa, que cria uma infra-estrutura para a recuperação e reutilização de cada material contido no lixo eletrônico (metais como cobre, chumbo, alumínio e ouro, além de plásticos e vidros). Eles analisam métodos para planejar sistemas de produção que irão coletar o e-lixo, separar os componentes e utilizar esses materiais novamente. Os métodos estudados vão desde a separação magnética de peças em uma correia transportadora até sistemas de flotação, onde bolhas de ar grudam em substâncias diluídas em água ou outro líquido, levando-as à superfície, onde são recolhidas.
Entre 50% e 80% do lixo eletrônico coletado para reciclagem nos Estados Unidos é colocado em navios e enviado para China, Índia, Paquistão ou outros países em desenvolvimento, onde é reutilizado ou reciclado em condições altamente irregulares, freqüentemente com resultados tóxicos. A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos estima que, em 1997, pelo menos 3,2 milhões de toneladas de e-lixo foram jogadas em lixões americanos.
Uma brincadeira feita no Reino Unido mostra o tamanho do problema. Os britânicos construíram um homem de lixo eletrônico com sete metros de altura, feito com toda a sucata digital gerada por um britânico ao longo de sua vida. O boneco gigante é construído à base de eletrodomésticos, computadores, teclados, celulares, videogames e outros cacarecos digitais. Os britânicos estimam que uma pessoa nascida em 2003 que viva até 2080 vai gerar 8 toneladas de lixo eletrônico ao longo da sua vida, mais que dobrando o tamanho do homem de lata velha.
Em março deste ano, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou um programa com o apoio dos maiores fabricantes de equipamentos de informática e telecomunicações do mundo para criar padrões globais de processos de reciclagem, aumentar a vida útil e desenvolver mercados para a reutilização dos produtos eletrônicos.
Só para se ter noção, um telefone sem fio tem uma vida média de um ano e meio e um computador pode ser considerado obsoleto em três anos. Teme-se o acúmulo de grandes quantidades de computadores defasados em áreas sujas de reciclagem nas Filipinas, Tailândia e outras nações da Ásia, onde fica a maioria dos depósitos de e-lixo do mundo. Hoje só entre 10% e 15% de todo o lixo eletrônico produzido no mundo é destinado à reciclagem, o que inclui o aproveitamento de peças e componentes eletrônicos.
A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, a EPA, informa que o país gerou 2 milhões de toneladas de sucata eletrônica em 2005. E o instituto de pesquisas Gartner estima que 133 mil computadores são jogados fora todos os dias nas casas e escritórios americanos. E apenas 10% a 15% disso tudo é reciclado.
No Brasil, as estatísticas mostram que no ano passado foram comercializados no Brasil quase tantos computadores quanto DVDs – 7,04 milhões e 8 milhões, respectivamente. Em 2008, deverão ser vendidos mais de 10 milhões desses equipamentos, que então terão ultrapassado as vendas de televisores (10,8 milhões em 2006).
O problema é que o Brasil está apenas começando a equacionar o reaproveitamento da sucata digital. Os aterros sanitários e lixões são o destino certo de quase todo o e-lixo. O reaproveitamento desses materiais é ainda insignificante no país, segundo a Associação Brasileira da Indústria Eletro-Eletrônica (Abinee).

