Bush e o etanol

quinta-feira, 08 de março de 2007.

Bush e o etanolPor Darlene Menconi

O interesse mundial pelos biocombustíveis substitutos dos derivados de petróleo está acelerando a produção do etanol nacional. Durante a visita do presidente americano George W. Bush ao Brasil, ao longo desta semana, esse será um dos itens principais da pauta de conversas com o presidente Lula. Os Estados Unidos precisam buscar alternativas ao fornecimento de seu petróleo, vindo principalmente do Oriente Médio e da Venezuela, dois pólos de conflito geopolítico. Para o Brasil, essa negociação pode ser uma grande oportunidade de avançar sob os princípios do desenvolvimento sustentável, sem graves pecados ambientais.

Nem tudo serão flores nesse embate diplomático. Enquanto os americanos buscam discutir e compartilhar tecnologias de produção de álcool combustível, o Brasil pretende destravar alguns embaraços protecionistas, como a imposição de taxas que tornam o álcool brasileiro mais caro do que o mesmo combustível feito a partir do milho, em solo americano. Não se esperam grandes avanços do ponto de vista da redução de impostos ao nosso álcool.

canavialO que o Brasil não poderia perder, segundo os analistas, é a oportunidade de aproveitar seu papel de liderança para avançar na produção de etanol a partir de outras matérias-primas além da cana-de-açúcar. Já se ouvem vozes de ambientalistas alertando para o fato de que com a falta de fiscalização ambiental e a precária realidade fundiária, nosso país poderia se tornar um imenso canavial. Por isso, alertam esses especialistas, é importante investir igualmente nos projetos de produção de etanol a partir de pedaços de bagaço e palha de cana, que também são celulose.

Recentemente, a maior empresa produtora de petróleo da China, a PetroChina, anunciou seus planos para produzir etanol a partir de pedaços de madeira ou de palha. O mesmo fez a Range Fuels, dos Estados Unidos, que pretende construir ainda este ano a primeira fábrica americana de etanol em escala comercial obtido a partir de resíduos de madeira. Só o Departamento de Energia americano anunciou sua disposição de investir US$ 385 milhões em seis projetos de refinaria para produzir etanol de celulose obtida de matérias-primas como palha de trigo e grama.

etanolO Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) já fez soar um alerta. Em visita recente ao Brasil, seu diretor-executivo, Achim Steiner, reconhece o papel de liderança brasileira na produção de etanol. E diz que o fato de os biocombustíveis terem atingido o topo da agenda mundial está relacionado a uma convergência de fatores, como segurança energética, custos e alternativas para evitar mudanças climáticas.

Isso é um passo importante e decisivo para a diversificação da matriz energética global, e nisso o Brasil tem papel-chave. Mas as práticas de produção e a tecnologia atuais dos produtores de álcool combustível, diz Steiner, ainda estão longe de ter alcançado seu ponto de excelência. E é justamente isso o que o Brasil tem a lucrar dessas negociações com países interessados em nossa tecnologia do álcool. O que se espera das lideranças brasileiras é que não percam a oportunidade de planejar o avanço da produção de etanol, mas que mantenham sempre os olhos fixos no horizonte de longo prazo, naquilo que será bom para o país e para as próximas gerações.

 
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